Baltimore: Nina Simone, por Nina Rizzi

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David Ewen no livro American Songwriters (1987), conta que “com suas observações depreciativas sobre a cidade a canção Baltimore gerou muita polêmica”. Acrescente a isso o fato de que seu compositor, Randy Newman, cresceu em Los Angeles e Louisiana e nunca colocou os pés em Baltimore (Maryland). É claro que seus detratores diziam que a canção não podia ser levada a sério (ou cantada).

Baltimore está no álbum Little Criminals (1977), e é bem direta, com alguma tensão por causa do piano que é suavizada com a entrada da bateria no refrão.

MAS, esta canção nunca foi de Randy Newman, assim como, por exemplo, “Sozinho” nunca foi do Peninha e, sim, é do Caetano Veloso. Baltimore é e sempre será uma canção de Nina Simone (muito embora também tenha sido regravada por outros grupos que deixarei indexados ao final dessa postagem, para não avacalhar o conteúdo principal).

Talvez vocês ouçam a versão de Nina Simone e pensem que os moradores da costa leste estadunidense tenham gostado mais da versão da minha xará, esse reggaezinho que dá essa vontade de sair por aí livre, muito livre a subir montanhas fumando um… opa! A cidade é portuária, estamos falando de uma mulher negra que lutava pelos direitos civis nos EUA e estamos nos anos 1978!

Baltimore é o décimo quarto álbum de estúdio de Nina Simone, e foi lançado pela CTI Records. O produtor de jazz Creed Taylor decidiu contratá-la após ver uma apresentação sua (até eu se tivesse meios, né?).

Porém, as gravações foram bem tensas, porque Nina Simone sempre quis colocar em seus álbuns suas próprias composições, escolher pessoalmente as músicas que não eram suas, escolher os arranjos (vamos lembrar que ela era grandiosa, queria ser musicista erudita, tocar Bach, Bethoveen e essas coisas, e não foi aceita em conservatórios porque… era NEGRA), enfim, ter o controle criativo de seu próprio álbum. Taylor quis que este fosse um álbum de reggae, estilo que não era lá o de Nina… No fim das contas, todo mundo gravou as partes instrumentais e Nina Simone acabou gravando os vocais, segundo ela “em apenas uma hora num porão na Bélgica onde fui forçada a cantar músicas para sair logo de lá”. Disse ainda, mais tarde: “O material não foi minha escolha pessoal, e não pude fazer a seleção de músicas. Tudo foi feito antes que eu pudesse fazer quaisquer decisões”.

Das canções do álbum, contudo, algumas haviam sido cantadas por ela no show que Creed Taylor assistiu ao fazer o convite para o álbum, entre elas, nossa Baltimore, canção que ela voltou a cantar em muitos outros shows depois, inclusive quando já havia gravado outros álbuns (se esta fosse uma canção renegada, eu prometo, que não estaria aqui agora, como prometo não traduzir suas cartas pessoais). O álbum não decolou comercialmente, embora tenha recebido atenção considerável da imprensa. A recepção crítica foi mista. Hoje o álbum está entre os dez melhores na lista do The Guardian.

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Baltimore, 2015

“todas as cidades são inóspitas, meu amor”

Baltimore, também é uma canção de protesto, talvez por isso Nina Simone tenha cantado antes e depois do fatídico álbum que leva seu nome. Foi gravada exatamente treze anos depois – esse número dichoso – de sua virada política, quando já era uma voz inspiradora do movimento dos direitos civis.

Antes, quando cantava “suas coisas”, dizia que as canções de protesto “tiravam a dignidade das pessoas que queria homenagear”, algo como “nossos mortos não devem virar hashtags”. Mas então, em 12 de Junho de 1963, do nada e em plena luz do dia, um membro da Ku Klux Klan assassinou Medgar Evers com um tiro nas costas. Evers era um ativista negro do Mississipi que lutava contra a segregação racial na universidade e quando chegou ao hospital não o deixaram entrar porque era um hospital para brancos. Foi a virada de Nina Simone, a gota d’água, ela quebrou o copo. Cantou Mississipi Goddam e, meio século depois, a canção continua a ser um grito de revolta: “Todo mundo sabe sobre o Mississippi, porra!”

Baltimore veio depois, mas a fúria é latente (e legítima). Sua voz rasga todas as “cidade(s) dura à beira-mar”, onde as “pessoas escondem as caras” porque “a cidade está morrendo”. Não é só ela, todos querem fugir.

Há quinze anos, o governo estadunidense foi derrotado em tribunal por concentrar pessoas negras em bairros de habitação social nas zonas mais pobres de Baltimore, num novo tipo de segregação. Há cinco anos, Freddie Gray, um jovem negro, foi morto por policiais brancos em Baltimore, estava na rua protestando, tinha 20 anos e com certeza sua família não se esquecerá (e talvez se fizermos uma rápida pesquisa “policial mata negro em Baltimore, você já sabe…). Baltimore, querendo seus moradores ou não, é muito pior do que diz esta canção.

Assim como a família de Juan Ferreira dos Santos, 14 anos, também negro, morto a tiros pelas costas, assassinado pela polícia de Fortaleza no Ceará, não esquecerá.

Não esqueceremos. De nenhum, de nenhuma. Nem seremos hashtags.

Mississipi ou Baltimore é aqui. Baltimore é onde a polícia e seu Estado racista e assassino estão.

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FORTALEZA,CE,BRASIL, 21-05-2017: Saral Farol Rock, Local: Farol do Mucuripe. (Mariana Parente/ Especial para O POVO) NÃO ACREDITEM NESSA LEGENDA! NÃO ERA ROCK, NÃO É DO MUCURIPE!

traduzir, levantar os corpos

Esta  tradução começou depois de a ter usado como exercício na oficina “da poema à poesia”, onde a proposta era a partir do verso “uma gaivota espancada numa escada de mármore” as pessoas continuarem suas próprias poemas, sem eu ter dito que se tratava de Baltimore. Depois apresentei a música, pedindo que, na medida do possível, se esvaziassem da letra e apenas se deixassem levar pelo ritmo. Então, refizeram suas escritas, agora tentando colocar dentro deste ritmo. Ao final, mostrei minha tradução de Baltimore para a turma, mas era ainda uma primeira versão, que tinha feito naquele mesmo dia (na verdade tinha escolhido uma outra música para este exercício, e acabei mudando de ideia algumas horas antes da oficina por causa das discussões suscitadas no encontro anterior).

Esta é uma canção que me acompanha há bastante tempo. Quando morava longe do trabalho e vinha pedalando quase oito quilômetros, às vezes a colocava no repeat e  escutava durante todo o percurso, olhando e sentindo o vento da cidade a me rasgar como se estivesse ali, 1978, Baltimore. Então quando apresentei uma versão apressada, foi muito natural querer ficar um pouco mais com ela – acredito muito nisso: traduzir é enamorarse, e não pode ser algo feito às pressas, o amor nunca poderá ser isto.

Para traduzir esta canção, tomei algumas pequenas liberdades a partir da ideia “todas as cidades são inóspitas”, ou seja: Baltimore é aqui. Obviamente, troquei o título da canção por Serviluz. Serviluz é uma quebrada aqui de Fortaleza, muito próxima da Praia do Futuro. Curiosamente, procurava o bairro no google mapas e simplesmente não existe. Porque se Baltimore é aqui, Baltimore não existe, as periferias não existem, o Brasil não existe. Na verdade o bairro aparece com o nome de Vicente Pinzón (sim, o colonizador espanhol), assim como a própria Praia do Futuro enquanto bairro não existe, só é considerada Praia do Futuro a praia propriamente dita.

MAS, o Serviluz existe, eu garanto, e lá existem milhares de famílias que vivem trabalham, sofrem, amam, gozam, brincam, nadam e surfam, assim como em todos lugares do mundo. E é lá que morava o Juan Ferreira dos Santos, jovem de 14 anos assassinado pela polícia do estado do Ceará no ano passado enquanto curtia, talvez um reggae, com seus amigos no Mirante do Morro Santa Teresinha, que é uma outra quebrada que não consta como bairro no mapa.

Por isso, outra liberdade que levantei no corpo, foi trocar no segundo verso “Numa escada de mármore/ On a marble stair”, por “No mirante de pedras”. As outras liberdades se referem aos nomes dos irmãos “Sandy” e “Ray”, que troquei por “Juan” e “Agatha”, esta garotinha que todos nós também não esqueceremos.

Sobre questões gerais de ritmo, embora conhecesse a canção, antes de sua letra, procurei entrar num seu ritmo de cidade, cavalgar em seus versos, ouvir essas personagens que “escondem suas caras” sem saber porquê, e não as que fingem não saber porquê (essas são outras pessoas, não quero pensar nelas), tomando o caminho oposto ao que sugeri na oficina e mesmo depois, ao ouvir a música novamente, falando alto os versos de Serviluz, foi levando em consideração que o reggae é algo que se ouve muito aqui no Ceará, querendo muito, querendo muito mesmo que essa montanha alta que é o Morro Santa Teresinha, não desmorone quando vier janeiro, a estação das chuvas no Ceará; que possamos ter montanhas onde ir, pra toda gente, mesmo que montanhas sejam poemas-bombas que possamos gritar, lançar e dançar num rolezinho de reggae onde a polícia não nos alcance.

nina rizzi

*

Baltimore

 Beat-up little seagull
On a marble stair
Tryin’ to find the ocean
Lookin’ everywhere 

Hard times in the city
In a hard town by the sea
Ain’t nowhere to run to
There ain’t nothin’ here for free 

Hooker on the corner
Waitin’ for a train
Drunk lyin’ on the sidewalk
Sleepin’ in the rain 

And they hide their faces
And they hide their eyes
‘Cause the city’s dyin’
And they don’t know why 

Oh, Baltimore
Man, it’s hard just to live
Oh, Baltimore
Man, it’s hard just to live, just to live 

Get my sister Sandy
And my little brother Ray
Buy a big old wagon
Gonna haul us all away 

Livin’ in the country
Where the mountain’s high
Never comin’ back here
‘Til the day I die

Oh, Baltimore
Man, it’s hard just to live
Oh, Baltimore
Man, it’s hard just to live, just to live

Serviluz

Uma gaivota espancada
No mirante de pedras
Tentava encontrar o oceano
Procurava em todo lugar

São tempos duros nesta cidade
Nesta cidade dura à beira-mar
Não há pra onde correr
Não há nada livre aqui

Uma prostituta numa esquina
Espera um carro
Um bêbado deitado na calçada
Dorme debaixo da chuva

E as pessoas escondem suas caras
E as pessoas escondem seus olhos
Porque a cidade está morrendo
E quase ninguém sabe o porquê

Ah, Serviluz
Cara, é duro viver
Ah, Serviluz
Cara, é duro viver, só sobreviver

Vou pegar minha irmã Agatha
Meu irmãozinho Juan
Comprar uma van grande e velha
E levar a gente embora daqui

Pra viver num outro país
No alto de uma montanha
E nunca mais voltar aqui
Até o dia da minha morte

Ah, Serviluz
Cara, é duro viver
Ah, Serviluz
Cara, é duro viver, só sobreviver

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OUTRAS VERSÕES:

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