“Funda, palavra — desde o Ayvú Rapyta”, de Álvaro Faleiros

Casa de Reza na Aldeia Guarani do Rio Silveira — Bertioga/SP. Foto de Adriana Calabi.

Kaká Werá Jecupe nos lembra que, para os tupi-guarani, a palavra tem espírito, enquanto na dita sociedade civilizada muitas pessoas, sobretudos os poderosos, vivem de palavras sem espírito. Ele ainda observa que, para os tupi-guarani, ser e linguagem são coisa una; e que a própria palavra tupi significa “som em pé”. Os guarani enxergam o ser como som; tom de uma música cósmica regida por um grande espírito criador. Este é também chamado Tupã, que significa “o som que se expande”. Jecupe ainda compartilha o entendimento de que um dos nomes de alma em guarani é neeng, que também significa fala, sendo o pajé aquele que emite neeng-porã, ou seja, belas palavras. Estas, por sua vez, não são retóricas, pois o pajé é aquele que fala com o coração; fala e alma sendo aí coisa una.

Jecupe é autor, entre outros títulos, de Tupã Tenondé (2001), no qual retoma parte do Ayvú Rapyta: textos míticos de los mbya-guarani, publicado por León Cadogan em 1959. O estudo de Cadogan também está na base das traduções da cosmogonia guarani de Pierre Clastres (1990) e de Josely Vianna Baptista  (2011), que juntos inspiram também este nosso poema. Nele refaço a parte do Ayvú Rapyta em que se funda a Palavra.

Álvaro Faleiros

* * *

Funda, Palavra
[desde o Ayvú Rapyta]

a Adalberto Müller e Mário Ramos Francisco
meus amigos brancos de sangue guarani

I
o saber…..divino….das coisas
desdobra….o saber….as coisas
faz-se….no quem….da chama
engendra….no quem….da bruma

II
funda….Palavra….por si
mesmo….desdobra….dobrando
ainda….nada….da terra
apenas…..a noite….enquanto

III
conhece….a primeira….Palavra
do saber….desdobra….as coisas
bem sabe….assim….por si mesmo
a fonte….una….o destino

IV
conhecido….o Um….reúne
divino….saber….das coisas
brota….única….a fonte
água….do canto….onde

V
abre Uma….a fonte….do canto
sagrado….o olhar….procura
rediz….com força….surgindo
o divino….companheiro….futuro

VI
Grande….Coração….desdobra
ergue-se….ao mesmo….tempo
o espelho….do saber….das coisas
reina….na noite…..ainda

VII
o divino….saber….das coisas
desdobra….os pais….e os filhos
por vir….a Palavra….habita-os
assim….se sabem….divinos

VIII
em face….a seu….Coração
para que….tendo….lugar
Ela….se saiba….divina
a mãe….engendra….sempre

IX
pais….da Palavra….habitante
pais….da Palavra….futura
trazem….a fonte….que une
o saber….que desdobra….as coisas

X
seu canto….sagrado….abraça
funda….a Palavra….por vir
une….à fonte….o saber
as coisas….desdobra….assim

XI
da ponta….de seu….bastão
palmeira….azul….faz surgir
com suas…..cinco….palmeiras
retém….o leito….da terra

XII
uma….no centro….da terra
as outras….quatro….nas pontas
do tronco….talham-se….arcos
as folhas….recobrem….casas

XIII
transborda….o vento….sul
encontra….entãoseu lugar
em sete….bastões….o céu
repousa….em sete….colunas

XIV
remexe….o leito….da terra
dança….a primeira….serpente
jiboia….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XV
ouve….um primeiro….lamento
canta….a cigarra….vermelha
yrypa….subsiste….em imagem
no limiar….dofirmamento

XVI
move….um primeiro….marulho
girino….senhor….das águas
yamai….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XVII
abre….clareira….na selva
tuku….gafanhoto….verde
planta….seu dardo….grito agudo
e brotam….espaços….de relva

XVIII
vem….por entre….a clareira
uma primeira….perdiz….vermelha
inhambu….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XIX
vinga….de dentro….a noite
coruja….senhora….das trevas
Urukure’a….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XX
houve….depois….o dia
Sol….de nós….o pai
aurora….reveste….a imagem
no limiar….do…..firmamento

XXI
agora….deita….os olhos
tu….revestido….de terra
curam….boaspalavras
sonhaem sopro….e reza