Paisagem Sonora Para Estirâncio

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Parte da história, como o eixo & a roda, a voz colocada como objeto vivo da realização do poema sempre esteve entre nós, ouvintes & falantes & ledores, e uma busca rápida pelo campo da produção oral, via Zumthor, resolve meio caminho de pesquisa. Se se pensa que temos toda uma genealogia da oralitura dos terreiros & povos das florestas com seus cantos rituais, bem como a dinâmica muito eficiente da canção em tornar a poesia como campo de presença, e realização da voz-texto, nos coloca a ver os processos intermináveis dos fios de reconfiguração intermedial, que sempre nos foram uma corrente muito próxima e apropriada de fatura poética.

Da recuperação da voz de Mário de Andrade, via Turner, passando pelos discos gravados por Bandeira, Drummond, Vinícius, João Cabral, entre outros; atravessando as tensões vocalizantes da pós-vanguarda e os eventos performadores da componente marginal dos anos 70; entregando o enviesamento da pós-canção [ironia, em modo ativo] do cantofalado do rap, entre outros eventos fortes da posição central da voz, tem-se visto, em nosso atual cenário, uma série de poetas que se têm colocado em função de experimentar outras plataformas, tanto na produção de eventos como SubCena e o Macrofonia, ou o cenário crescente do Slam, ou Júlia de Carvalho Hansen que colaborou em Janeiro de 2020 com a banda E A Terra Nunca me Pareceu Tão Distante (TTNG),  ou uma produção como a de Patrícia Lino com o livro álbum I Who Cannot Sing, ou ainda as performances sonoras de Marília Garcia com o Coletivo Capim Novo, e da dupla Angélica Freitas e Juliana Perdigão, em Crianças Kids.

Dos encontros musicais entre Guache e Marovatto em 2019, surgiu a ideia de transpor o Estirâncio para o mundo dos sons e ruídos. Tendo a voz de Mariano como guia (acompanhada em determinado ponto pela voz de Luciana), o duo, ao longo da faixa, desenvolve texturas sonoras únicas, criadas com instrumentos construídos por Gil Fortes. As sobreposições de tais texturas com as vozes que guiam o ouvinte pelo Estirâncio, paulatinamente vão mudando de papel: ora ganham autonomia, ora criam subtextos, ora transformam-se em narradores. Ao final da experiência, a paisagem sonora que foi criada ao longo dos 14 minutos apresenta a totalidade dos seus contornos para o ouvinte, muito claros, mas fugidios, da mesma matéria do delírio de seu texto original.

Mariano, que também é artista sonoro, cantor & compositor, abdicou de suas funções musicais nessa gravação para assumir o papel de contador da história. Ao cinematográfico Guache coube a execução da paisagem sonora, termo popularizado pelo compositor, filósofo e ambientalista Murray Schafer. O mérito de Paisagem Sonora para Estirâncio está na fabricação artificial do soundscape praiano. O que surdamente era no livro Estirâncio de Marovatto uma leitura incomum e ensolarada, revira na peça sonora em incomum e noir. Como paisagem a ser vista de binóculos, ouça com fones em volume adequado. Mais abaixo, o link para o livro-lido & alguns textos de Estirâncio.

andré capilé

https://guache.bandcamp.com/track/paisagem-sonora-para-estir-ncio

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Guache é o projeto de música experimental de Gil Fortes e Luciana Melo. Impermanência, pluralidade de papéis, anomia, errância, improvisação, divagação, sons em camadas desviando para o não lugar. Canção, poesia, paisagem sonora, ruído, vozes sem palavras são algumas das possibilidades já exploradas. O duo se apresenta desde 2018 (RJ, SP e Lisboa) e tem dois álbuns lançados: O Que Vem (Rock It Digital, 2018) e Continuum Súbito (Bandcamp, 2019). Participou dos álbuns coletivos Vozes Sem Palavras (Sonatório/UFRB, 2020) e Experimental de Cinzas ao vivo na AUTA (Música Insólita, 2020) e colaborou em apresentações e/ou gravações com Ricardo Dias Gomes, Tantão, Debussy Bach Restaurant (Cláudio Monjope e Paulo Vivacqua), Darks Miranda e Mariano Marovatto. Sua produção está disponível em guache.bandcamp.com.

 

marova mantendo sua fama de mau

Mariano Marovatto escreveu livros como Estirâncio (7Letras, 2019), Casa (7Letras, 2015) e Vinte e cinco poemas com Chico Alvim (Luna Parque, 2015), e gravou alguns discos, entre eles: Praia (Maravilha 8, 2013) e Selvagem (Embolacha, 2016). Recentemente organizou Os Fantasmas Inquilinos, antologia de poemas de Daniel Jonas (Todavia, 2019) e a versão em português de Silêncio de John Cage (Cobogó, 2020). Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, foi roteirista e apresentador do programa musical Segue o Som na TV Brasil, entre 2009 e 2015. Toda a sua produção está disponível em marovatto.org.

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No lusco-fusco, caminho acompanhado, de mãos dadas, na praia, observando o despertar das dezenas de maria-farinhas. Andamos para o sul e um pequeno animal anda a passos mais rápidos, à nossa frente. Aumentamos a velocidade e o pequeno animal, um pouco mais escuro e mais verde do que uma maria- farinha, também aumenta, fugindo de nós. Aceleramos mais, a ponto de correr, e ele corre, foge desesperado, mas nunca para os lados, segue a linha do estirâncio, rente às ondas. Nossas passadas são de gigantes, infalíveis. Seus passos laterais e velozes, como os de uma maria-farinha, devem ser inaudíveis caso a praia se calasse. Ele para. Encosta-se na espuma ressecada de uma onda. Não se move com a presença gigante dos nossos pés. Desistiu do jogo da perseguição. Resignou-se; uma resignação imensa para a medida do estirâncio. Nossos dedões cutucam o seu corpo. É mole, alheio. Uma última cutucada e a constatação de que perseguíamos uma alga morta, animada pelo vento.

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Conversar com o estirâncio significa relatar o seu aspecto. Se ele parece afirmar algo, a ação possível é preencher listas com descrições. Sua linguagem, surda e intransponível. Seu terreno, vivo e impenetrável. Já a paisagem reversa – coqueiros, trilhas de areia, a lagoa – é um gigantesco objeto de armar. O estirâncio é receptível e impraticável.

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Olocum era da classe dos anfíbios, vivia na areia e no mar. Foi oprimida pela irrealidade para que decidisse entre terráquea ou submarina. Olocum, desolada, discrepante, multiforme, refugiou-se para todo o sempre no fundo do mar. Olocum era o estirâncio. Olocum é o maior dos seres marinhos.