Maria Isabel Iorio

maria isabel iorio

maria isabel iorio é poeta e artista visual. publicou, em 2016, Em que pensaria quando estivesse fugindo e, em 2019, AOS OUTROS SÓ ATIRO O MEU CORPO, ambos pela Editora Urutau. faz uma série de trabalhos em vídeo, fotografia, teatro, desenho, colagem, ações coletivas, reunindo os registros em: https://mariaisabeliorio.myportfolio.com/.

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fundamental não deitar não ficar de pé

estou dentro
de você seu
cu não esperava
a minha língua e reconhece
ela mais rápido
que você
que lavava a louça da pizza e devia
estar pensando em outras
besteiras quando te abracei por trás
agora você já sabe
que sou eu, claro,
e está me dando
o cu sem dizer o meu nome
nem eu estou
com nome
minha língua está inteira
ocupada
aqui não é o brasil mas
a nossa cozinha
aqui não estamos
emitindo nenhum som
ou documento
para a lucidez

não corremos
nenhum risco
de ter um filho
ufa não estamos
esperando nem reproduzindo
nada
e agora,
agora é a minha
vez

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dia sim dia não fazer chantagem

se fui deixada na sua porta
com o dedo na boca
que você me bote pra dentro
no colo e me cuide eu

seguirei tudo que
você pedir vou
aprender a andar
vou parar de chorar
vou comer o almoço
sem sujar a minha cara nem
a sua cozinha

vou aprender o seu nome
antes dos outros
e a pedir licença

vou usar roupa de menina
posso até pôr o laço de fita
mas também vou ser levada

dia sim dia não fazer chantagem –

eu prometo não acordar à noite
mas só se antes te comer de quatro
no chão da sala até tarde
se você assumir que também
gosta – e tem coragem –

de obedecer

§

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a permanência é um estudo solitário

à essa altura – trazendo
só ilusão no pelo – te
espero reiniciar meus
olhos – jogar fora as
botas que uso pra ir
embora dos seus –
elas não são reais
– eu não piso em
ninguém – você sabe
eu sequer faço barulho
– isso é mentira, seus
vizinhos diriam –
mas nunca vou embora
– isso é – que você
me levava toda vez que
me tirava os dedos –
fico pequena e nisso
aprendo paciência –
antes sabia bagunçar
seu cabelo, sabia ver
ele crescer, ser cortado, –
sabia beijar seu suvaco –
alimentar a crença de
que havia um rato morando
na sua cozinha – que fazia
barulhinhos, mas não aparecia,
nunca aparecia – sabíamos
chamá-lo de filho – e
agora – agora vou saber dizer
de longe – como quem
perde o último pedaço
do sanduíche, como
quem chega atrasado
na própria vida, –
eu já esqueci como são
minhas mãos – elas estão
paradas – só as conheço
por dentro – ou pelas
câimbras – as câimbras
me devolvem minhas
mãos – eu queria poder
usar as suas pernas
para falar das suas pernas
– tornar cada enunciado –
mas não posso – posso
narrar em detalhes
as suas mãos – e isso,
no entanto, não as traz até
mim –
a continuação do amor,
essa extremidade: eu vejo
precisamente você – porque
estamos separadas.

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se eu não puder voltar

Eu era pequena fui a um parque d’água, um parque onde constroem circuitos / de água com cloro, variações de piscina, onde oferecem estes serviços ao / público, bom, lá estava eu, entrei em uma correnteza, um rio artificial que / cruzava toda a área do parque, arrastando quem entrasse, eu e minha mãe, outras / crianças, muitas delas, eu lembro certa altura me perdi de minha mãe, olhei para os lados / não estava, e eu seguia involuntariamente, não conseguia voltar, tamanha / força de sentido único, lembro da agonia desse dia, da dúvida se desistia ou tentava / me lançar de volta à terra, seja lá onde eu estivesse àquela altura,

cheguei a pressentir: o problema da correnteza não é te impedir de voltar, ou te impedir de decidir o caminho – o problema da correnteza é te dar a impressão de que não se quer mais ficar parado. A perda falsa deste sentimento. Esse dia, eu sei, me ensinou a perder a origem com mais honestidade.

É visível: se me olho no espelho, ainda hoje, há sempre um ponto de interrogação cravado / nos meus olhos, e a imagem me perturba: não por não saber a resposta, mas / por não saber a pergunta.