Laura Assis

Laura

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, editora e professora. Graduou-se em Letras pela UFJF, é mestra em Estudos Literários pela mesma instituição e doutora em Literatura pela PUC-Rio. Participou da antologia Naquela língua (Elsinore, 2017), lançada em Portugal. Teve poemas traduzidos para o inglês e espanhol e publicados em revistas nos EUA e México. É autora do livro Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e das plaquetes Todo poema é a história de uma perda (Edições Macondo, 2016), Mecânica de nuvens aplicada (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e Duas vezes o sol (Aquela Editora, 2019).

* * *

Revelações

I

Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

II

Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
(e nada mais).

III

Sejam muito bem-vindos ao Encontro dos Pais Que Fingem Que Seus Filhos Não Existem. Apesar dos esforços insistentes de alguns juízes, familiares e de nossos quase invisíveis descendentes, nossa categoria ainda resiste na luta pelo direito de fazer de conta que não temos nada a ver com isso e se ausentar para todo sempre, seja qual for a consequência e o método. Convidamos agora todos para uma confraternização no térreo, sem culpa e sem filhos, com música ao vivo e open bar. 

IV

(outra vez essa imagem
lacerando aí dentro,
mas agora você sabe
o que fazer pra se salvar)

V

entre todas as possibilidades ela escolhe
sem saber a minha preferida quer dizer
se tudo tivesse acontecido de outro modo
se você tivesse me visto antes se tivesse
dito isso se ela tivesse sido vista ou contado
outra história e dito a mesma coisa mas
vindo de outra família enfim eu gosto de
jazz sim e não acredito em astrologia ela
disse e eu até que me viro na cozinha o que
dizer dessa conversa continuo é bom olhar
algo pronto e existindo no mundo e saber
que fui eu que enfim era algo parecido
com o primeiro encontro mas aquele não era
o primeiro e é claro que a gente não chamava
de encontro como se o telefone tocasse agora
e pudesse ou não ser engano um sonho uma
coincidência tudo tinha que poder ser lido até
o último momento de outro modo o acaso um
livro que só se entrega na última página mas
o que fazer nesse caso com a intuição e mais
do que tudo onde colocar as mãos do que você
está falando desculpa talvez eu tenha entendido
tudo errado ou imagina nada disso talvez não

VI

Então peguei o livro, falei que gostava da capa e que leria em breve.
Ela me olhou como se fosse contar um segredo, mas apenas sorriu e disse:
— Meu sobrenome é muito comum, nunca vou ser sua poeta preferida.

VII

Os nomes desaparecem aos poucos,
como luzes desafiando a lógica,
pequenos incêndios que se afogam,
quando amanhece se confundem
com a claridade irrestrita do dia.

Ninguém sabe se foram ofuscados,
ou apenas se desmancharam no ar.

VIII

mãos distantes
corpos próximos
apenas longe
de outros olhos

IX

Há quantos anos escapando por muito pouco todos os dias
antes mesmo do que chamamos manhã começar?

X

Depois de tudo,
acender os olhos,
e repetir o código,
quase um aviso:
a cada corpo,
de um modo
ou de outro,
abandonado
ou perdido,
um verso novo
pra desalinhar
de vez
esse
seu mundo.