Cecília Floresta

Cecília

Cecília Floresta, afrodescente, é escritora, editora e tradutora. pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, macumbarias, lesbianidades e literaturas insurgentes. tem editados os poemas crus (Patuá, 2016), genealogia (móri zines, 2019) e panaceia¸ que será lançado pela Urutau no segundo semestre de 2020 e de onde foram retirados os poemas aqui publicados.

* * *

quarto crescente

tem dias que escrevo em voz alta
com as mãos relaxadas nas coxas
acho que as palavras cansam
me dobram os joelhos
fazem cair os cabelos
& crescer ideias onde não tinha

Cecília, deixa disso
a princípio
ela não deu indício

tem dias também que não escrevo
deixo que os termos derretam
escorrendo paredes internas
esquentando por dentro o peito
dormitando os sentidos
& calando derradeiros poréns

ela não deu indício
deixa disso
deixa

há dias também que nem sei
como ou por onde começar
a desfazer o silêncio e seus resquícios
que resmungam em meus ouvidos atentos
alimentados por canções antigas
ou a bobeira lânguida & matinal dos gatos

mas as unhas abrindo caminho no estofado
só poderiam ser minhas
embora você não tenha dado início

então deixa disso, Cecília
deixa

§

odisseia

por entre suas coxas devaneio
mareada de perigos assim me vejo
nos movimentos fluidos de seus líquidos
como Ulisses liquefeito em sete mares
ou Grace O’Malley
pirata de águas bravias irlandesas
que esqueceu-se de deixar história contada
ou que apagada se foi dos livros

sereias que me cantam aos ouvidos
convidativas rumo ao fundo
cila, caríbdis, a força das marés
as tempestades incansáveis de ogunté
agindo ao sabor das fúrias

pirata, sim, me faço corsária
muito mais que herói mito
embrenho adentro os mistérios escuros
que carregas no meio das pernas
tão altivos quanto os rochedos
de que falou Victor Hugo
e que guardam certamente
selvagens monstros marinhos

vislumbro através de seu monte
por fim ávida sedenta & aflita
uma esperança distante de terra
e de água doce fonte contínua
que me vem então de encontro à língua

§

a mulher-macho

a mulher-macho
andava pela cidade pisando duro
com seu coturno surrado
& de grande número

a mulher-macho
que desbrava ruas & anula
o território do homem
que tudo heteronormativa

tudo menos ela.

até que cientistas
capturam a machona
pra estudos mirabolantes
sobre as possíveis causas
de seu sufixo

prendem numa jaula
a sapata destemida
os cientistas
de bigodes pontudos
alvos jalecos
& canetas esferográficas
cutucam a mulher-macho
que esbraveja
mostra os dentes
sacode as grades
& cerra os punhos

os curiosos agentes
despem as roupas da mulher-macho
e se dão conta de que assim
nua & a base de tranquilizantes
ela se parece até
com suas esposas obedientes

a mulher-macho é adornada
com firulas babados & fru-frus
que julgam exaltar de seu corpo
a feminilidade perdida
pintam-lhe as unhas curtas
os lábios de vermelho
lhe arranjam os cabelos
& lhe perfumam a pele

de longe então
& dentro de uma jaula
qualquer um diria
que a mulher-macho
não passa de uma mulher comum
apesar de certa virilidade
que lhe salta aos olhos

após uma semana de coletas
de sangue de amostras
de urina saliva & tecidos
por um cochilo do grisalho
sofrido de insônias terríveis
virago empreende fuga

agora a mulher-macho
adquiriu um novo coturno
& voltou às ruas

um belo exemplar, você diria.