beatriz rgb

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beatriz rgb (Beatriz Regina Guimarães Barboza) pesquisa na área de Estudos da Tradução na UFSC — trabalhando com os estudos feministas de tradução e/m queer —, assim como escreve, traduz, revisa e edita. publicou a plaquete with a leer of love (Macondo, 2019), traduziu com Meritxell Marsal o livro Desglaç, de Maria-Mercè Marçal, como Degelo (Urutau, 2019) e escreveu livros de poesia: quartos esvaziados (Urutau, 2015) e Entre rios (Kazuá, 2017). edita a Pontes Outras com Emanuela Siqueira e Julia Raiz e, também com esta, a revista Arcana. os poemas selecionados fazem parte do livro querides monstres — tradutora em sentido insular que está em processo de reescrita.

* * *

4 POEMAS DE QUERIDES MONSTRES — TRADUTORA EM SENTIDO INSULAR

I

Ofélia lleva 10 minutos
espremendo 3 naranjas
em 7 goles bebe el zumo
morde cada gomo
e em 21 años já tiene
trincados los caninos

fín del invierno andaluz
huelen las flores abiertas
um llamado às laranjeiras
ao despertar as desejou
boca que lambe y chupa

caminando estrangeira
por las tardes y las noches

só en su despedida
tomou en las manos
aquelas laranjas caídas
grudadas a las viejas
piedras de las plazas
de Córdoba y Granada

o melado daquele cheiro
envenenou-lhe a memória pero
se tuviera preguntado a
qualquer ume que talvez jamás
tenha lido Machado o Lorca
qualquer ume saberia dizer-lhe
aloka, son agrias, no se las coma

§

II

Jackie, acabam-se as tardes
homens regam seus jardins
varões viris com suas varas ah
papapá mas minhas plantas,
Jonas, não as toque

vaza daqui te cutuca uó
tua própria próstata vai

molhadas por minhas mãos
abraço gavinhas com ânsia
me perfuram o pescoço
Jackie meus dedos
se tornaram secos
pelos inúmeros cortes
não resisto, só peço isso,
sempre que te agarro
pelo fio lascivo de uma faca
na feral tentação de
abrir minhas veias

quero regar a terra
ao sangrar a garganta
lancetando as artérias
para articular guelras
viver
20 Jahre imersa sobre
a língua de 1 jubarte

Jonas, hoje tenho apenas
unhas quebradiças
escamas tenras
1 açougue aberto das
fatias de minha carne
logo não me impeça
de chorar pelas ausências
llorando por vosotres
mis amores

troquei minhas paredes
amarillas
pelas cerdas de um cetáceo
serei a serva
dele piraquê em sua boca
esfolie minhas cicatrizes

aprenderei mascando algas
como gozar
do que falta
só voltarei quando souber
queimar meus tecidos
vestir palhas trançadas
empilhadas pelas pombas
sobre os sulcos das calhas
ser espantalhe em peles
furry nights com sues amigues
querides mortes-vives
a quem ofereço sangue
há 21 Jahre gegen alles
alles Lüge

§

III

Goluboy Angel me dá
um gole do seu charme
vira essa cartola
na minha boca não
é necessária a música
falling in love again
tem chuva escorrendo

as calhas cantam
o que por elas caia
não sou atirada
mas me deu oi
tem boi na linha

“demos tiempo al tiempo:
para que el vaso rebose
hay que llenarlo primero”

nos ressoa, né, Simone? bueno é
Machado poeta do Guadalquivir
a gente se vira na rima aos 30
afia nossa lábia nosso lábris

cá e lá entre córregos rasos
vejo-nos cântaros vertidos
Carla & as criaturas aquosas
uma grande banda das Yabás

“con el tú de mi canción
no te aludo, compañero;
ese tú soy yo”

jo sóc l’altra, tu ets jo mateixa
o tempo corre
espelho partido
por nós filhes do rio

em perpétua sentença
morrem-nas-cheias
renascem-nas-estiagens

confuses em densos turnos
plutoniano fluxo

que feio ficar no meio, Quéfren,
chega junto e não se faz de muro

Goluboy Angel amadurece
suculente pronte pro corte
resseca e corrói na espera
nossa voz muda sussurra
chama inflamada
o caminho ao mar aberto

§

IV

toda vida subindo a morreba

amonstres sorriem no salão
transição sidecut
arranca cara serra dedo
gozam de próteses
no contato entre peles ciborgues
o deserto se inunda
profetas lançando confetes
biodegradáveis

amonstres não se matam
arrancam de si o que sobra
se acolhem pela dobra torta
vaza dessa mania de Maria

bota as tripas pra fora,
queride,
da última curva do duodeno
faz sua via
amonstres comem teu reflexo
no espelho partido

chega de morde e assopra
de murro em ponta de faca
muro é matéria fraca

mete os pés pelas mãos
suje e translúcide
um afago enlameado
amor entre cúmplices

mein Teil my ass
ninguém se come
a gente se alimenta
corrente alternada
de reparação constante