Michele Soares

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Michele Soares [São Paulo, 2000] tem vinte anos e mora em Itapecerica da Serra/SP. É graduanda do curso de Letras – Português/Grego Antigo da Universidade de São Paulo (USP). Nunca divulgou seus versos em nenhuma plataforma – é na ​escamandro que publica pela primeira vez.

*

 

Fevereiro em São Paulo

lanças-me um olhar duro e demorado
duro e demorado
como são as horas e as manhãs.

agora o mundo sangra
sob o toque vináceo
tudo sangra no triste embalo
daqueles outros carnavais…

torço para que o corpo não esqueça
que tudo não me esqueça
e que se esqueçam de esquecer de mim
a carne e as primaveras
girassol… rondó… dindi. 

é Fevereiro e há
selos atrás de selos
beijos atrás de carros
tudo se empilhando aos montes
ventos, cartas, dias…

 é que o mundo é tão menos
o mundo é tão pouco, amor
sem seu olhar duro e demorado
duro e envenenado
como um poema quase cantado:
uma tal de balada ancestral
nascida intempérie do Hoje.

§

 exposição 

Estavam apoiados no ombro um do outro
como se decidindo
o que fazer quando se afastassem
debatendo todos os planos
e todos os sonhos de uma vida.

Como se não fossem estátuas.

Ou ainda pior!
Como se soubessem que eram estátuas
mas que profundamente
não se importassem

§

Novíssimo Oeste

é meio-dia
o trem se aproxima.

em plena Luz te avisto de azul
e tudo o que digo é
ARME-SE! mas sem palavras
ou ficarás presa
ao sabor doce da vida
e ao nunca ter conhecido
olho a olho e fronte a frente
o nu de uma questão.

*