Mari Matos

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Mari Matos (1991, São Paulo/SP) é uma poeta e escritora que começou a escrever quase que por acidente e muito despretensiosamente. Fala sobre as violências e afetividades que atravessam a vida da mulher negra. É formada em psicologia e possui mestrado pela Universidade de Glasgow.

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Ofereci um buquê de ervas
Para as deusas
Pedi a cura de você

Há quem ache louca uma mulher nua a dançar com um buquê de ervas
Mas eu uso a palavra
“Livre”

§

Se eu toco minha pele
Consigo sentir o toque de cada uma das mãos que já me percorreu
Consigo ouvir cada uma das vozes que já me descreveu
Sinto os buracos do que foi roubado
A moldura do que me foi feito
Se eu toco a minha pele sinto meus dedos gelados
Passando por pelos que eu já não podo mais
Por traços que me são ancestrais
Se eu me olho no espelho
digo que sou uma mulher muito melhor do que sonhei
Se eu olho para dentro
Percebo um corpo que sempre se empresta para a necessidade de outras pessoas
e tenho a dor de saber que ainda não sei quem eu sou para além do que deixei que fizessem de mim
Se eu toco a minha pele
No silêncio de uma casa que pela primeira vez é só minha
Cercada por um monte de móveis a montar e pertences que ainda não sei onde colocar
Começo a sentir um prazer discreto
E solto um choro engasgado
Me perguntando se isso é começar a existir
30 anos depois de ter nascido

§

Entre uma violência e outra
Eles nos mandam sorrir
Parei com o gesto
Para não lhes dar a satisfação
Depois percebi
Que quando o sorriso é genuíno
Não gostam
Mulher feliz
É uma revolução

§

Tem mulheres pretas se amando
O povo todo escandalizado
A vizinhança se põe a falar
Vem a família julgar
Dizer que é errado
A avó diz que não é de Deus
Os pais decepcionados

Tanta desaprovação que fica claro
que no Brasil
Se abraça o genocídio
Se aceita a violência doméstica
Ignora-se a tragédia
E só indigna-se
Quando tem mulheres pretas se amando

Por mulheres pretas se amarem
As pessoas ficam mais escandalizadas do que com o fato de que morrem 13 mulheres assassinadas por dia no Brasil
A maior parte nas mãos de companheiros, pais, irmãos
E quem mais morre são as mulheres pretas
Sem amor algum
É sempre bom lembrar que
Tem mulheres pretas se amando
Para ninguém tentar apagar essa história (ou a vida) em nome do Senhor
E você está certo
Elas anunciam o fim da mundo tal como ele é
Neste país que foi construído em cima do trabalho escravo de mulheres pretas e do estupro de seus corpos

Por isso, repito
Tem mulheres pretas se amando
Não foi perfeito
Não foi à primeira vista
Não foi sempre fácil
Mas construído com carinho
Descoberto diariamente
Por quem ancestralmente
É impedida de amar em paz

Tem sim mulheres pretas se amando
Ouvi boatos de que sorriem como nunca
Sorrisos largos em lábios cheios
E que às vezes ficam na dúvida se sorriem, riem ou beijam
Tentando sincronizar os movimentos de alegria

Tem mulheres pretas se amando
Se encaixando perfeitamente em abraços
Se encaixando perfeitamente em outras coisas mais (se é que você me entende)

Tem mulheres pretas se amando
Há quem diga que é pecado ou revolução
um desastre ou desconstrução
Mas o importante é saber que
Tem mulheres pretas se amando
Amadas
-que sorte a nossa, ein

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