João Gabriel Madeira Pontes

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Saúvas avulsas (Garupa, 2019).

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Manobra de Heimlich

Chegará o dia em que todos os argumentos, mesmo os mais infundados/ o confuso marulho dos helicópteros em movimento, o embrulho, estes montes/ rasos que nos espreitam, a febre terçã, as rugas nos teus pesadelos, o gênero/ da maçã, a prisão das fortunas, as tribunas, os meus tantos conselhos tardios/ romperão, feito abrolhos solares sobre tumbas de arrepios, o parco entendimento/ do cão invisível que dorme aos nossos calcanhares, sem maiores sobressaltos/ (apenas os tremores sucintos de quem também consome pesadelos e atalhos)/ para ocupar as cavidades desta garganta, a única garganta do mundo, e desdobrá-la/ ao modo mais jagunço, até que reste só a chaga urgente e seca, a ser temperada/ e digerida, traduzida, dita e vivida, no dia em que o teu filho nascer e, antes de abrir/ os olhos, pôr-se a caçar o teu seio esquerdo, tão esquerdo quanto a mão/ com que agora escreves, não sem medo, a entrada mais recente do teu diário// e certamente nos lembraremos do que comemos naquele dia e das conversas ocas/ que nossas bocas tergiversas trocaram, as bulas e os recortes de jornal engasgando/ os anos seguintes, os poucos requintes da minha coleção de dicionários, os livros/ do Mario Levrero, repletos de anotações, as encomendas, as malas desfeitas, as lições/ de matemática que escaparam à consciência errática do teu único filho, o teu menino/ e, assim, talvez este cachorro poderá ganhar corpo, som e desaforo, no lodo/ dos planos clandestinos que não tocarão a realidade, tampouco a língua áspera/ e covarde do tempo, a lamber os teus ossos lentos, abrindo sulcos entre os coqueiros/ da tua memória, sorvendo os óleos de que precisarás para acalmar os bichos/ matreiros que despertarão na tua cabeça quando, da Praça Mauá, assistires/ a última embarcação deixar o porto, sua quilha de açúcar mascavo a roçar/ o tombadilho, o pavilhão a beijar o favo das tuas mágoas dormidas, as lágrimas/ no rosto do teu filho, que hoje tem o seu próprio filho, reflexo justaposto à imagem/ de quem não mais te parece familiar, mera miragem às quatro da madrugada/ hora em que costumavas desterrá-lo dos teus braços, o relógio a te negar intervalo/ para o descanso, mas, embora estranha, esta nova imagem amansa e consolida/ o espírito do teu menino, como no famoso autorretrato pintado por Parmigianino/ a partir de um espelho convexo e do seu reflexo disforme, imagem em que coube/ (segundo especularia o poeta John Ashbery séculos depois) a alma pequena do artista/ italiano, condenada à imobilidade enquanto intercalam-se chuvas, ventos, outonos/ e, entretanto, absolutamente capaz de provocar em qualquer observador atento// comoção similar à que o filho do teu filho experimentou diante do pescado/ agonizante que te açoitava a rabanadas, o clarão do meio-dia quarando as escamas/ prateadas, suas guelras asfixiando em prece, pois o que é a prece senão a mais pura/ forma de asfixia, todo o peso de Deus sobre o teu diafragma, nada ao alcance/ das barbatanas e, no anzol, a garganta que não constará dos manuais de anatomia.