Carol De Bonis

Caro

Carol De Bonis (São Paulo, 1982), escreve para mudar os caminhos por onde passa ou perder-se em alguns deles, professora e estudante de pedagogia, autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015), os poemas aqui são inéditos.

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Pequenas equações para o sol

algumas mulheres não sonhavam
em outra língua antes de nascerem
qual a melodia para a memória
qual a melodia para as armadilhas
da essência do retorno?
Do duplo caminho envolto da floresta
ela escolhia o lado de fora do delírio.
Ir pelo outro lado e fundir o dia na noite
ou a noite no dia. Fundir o fora no dentro
ou o dentro no fora. Fundir um círculo
noutro círculo e recolher na sombra das árvores
o som da fusão entre a madureza e o estio
de inventar uma saída nômade
para as pequenas equações do sol.

§

O outro lado da floresta

seguiremos pelo outro lado da floresta
talvez haja perigos demais para que me mantenha
impassível. Qual parte recortada no jornal
escreve sobre o lado da história que não se repete?

no fim, sua escolha é apenas mais uma
feito dizer flor alheio sem querer-se ingênuo
ou como se fosse a primeira vez que pisamos
nessa zona fantasmagórica de rosas. O mundo
não vale o mundo? Jogo.
Eu não jogo, deixo o corpo
como quem se despe ocultamente.

não é preciso fechar as mãos
como ato de proteção
saber abrir dedo por dedo tocar
essa curvatura, apanhar migalhas
nesse sótão, apalpar o mundo
dispensando a luz elétrica baixar o tom
como quem ouve algumas mortes
encontrar-se dentro da terra
cavar origens curar o dom
para despossuir-se.

§

Quando o hipnotizador entra em cena

quando o hipnotizador entra em cena
basta acreditar em sua missão
para que todos fechem os olhos
se movam feitos peixes cardíacos
no mar agitado a atravessar a correnteza
no prenúncio do código:
o hipnotizador sempre observa
uma margem de manobra imensa
a natureza errada do poema
no absorver da seiva gasta sabe
das influências dos poetas
em sua veia homicida.
Quando o hipnotizador entra em cena
muda o poder dos pensamentos
como o regente da orquestra
inicia um concerto musical imaginário.

ele a faz pensar num poema a partir
da outra língua, ela pensa
no poema a partir de sua língua,
como quem traduzisse o personagem
como um outro a partir do que
se imbrica em seu cerne,
a composição instantânea corta a cena,
rasga a pele e sonha sem parar
até encontrar a rima correta.

sonha que mora dentro da caixa
de música, os corpos desabam
nos ouvidos visuais
o hipnotizador e a tradutora:
aprendem a passar desapercebidos
o contorno dos olhares perdem
seus invólucros de caligramas
escapam sempre mais fora do que dentro.
Já ter acontecido hipnotizar-se?

é uma cena quando o hipnotizadorentra.
Mas há alguém sempre
a duvidá-lo a interpelar a verdade do ato,
alguém que pensa em caminhos herméticos
ilhas, simulacros, grutas ou espelhos
no oculto desse momento
sem pressentir o que o levaria
à infância de um sentimento.

§

Da hipnose que transfere

 do alto você vê o que em mim cala
nos gestos do outro lado, não te vejo
somente simulacro ao que representa
alquimia das mulheres que guardam
a alma detrás do palco, para algum
script secreto, pescador de fundos falsos

experimentamos o palco para pura montagem
o tempo é real, mas os ângulos falsos.

quando do alto avista pássaros de asas leves
pensa que sou o que em mim está
passo perene como nas voltas
daquele prato de sopa que, certa vez,
vimos num restaurante tailandês
entre curvas claras as pessoas comem
os alimentos inexistentes com olhares quites
deliciam unidas um mundo de belezas ausentes.

o branco sobre o branco sobre o branco
sombras retas e uma mulher encostada no divã
uma curva real e um segredo fabricado.

*