Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

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Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*