Henri Michaux, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

10 aforismos de Poteaux d’angle (Pilares de canto), de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984), poeta belga de expressão francesa, foi um sujeito dotado de grande curiosidade e marcado pela não-acomodação. Interessou-se por quase tudo ao longo de sua vida: escrita, etnologia, línguas, música, pintura, corpo humano, drogas, zoologia, botânica, mineralogia. Diz-se dele que, antes de morrer, morava em um quarto praticamente vazio, a não ser pela presença de dicionários de biologia, astronomia, línguas, ornitologia, etc.

Ele viajou muito, tanto a trabalho quanto por prazer. e tirou grande proveito do tema da viagem para fora ou para dentro de si em sua literatura. Foi para a Inglaterra, América do Norte, Índia, China, Japão, conheceu vários países da América do Sul e, no Brasil, visitou os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tanto quanto os grandes deslocamentos interessavam-lhe as pequenas distâncias e os seres minúsculos – diz-se que andava com uma lupa no bolso. Também era um observador minucioso dos processos vitais e do comportamento de organismos, na saúde e na doença, fossem eles seres humanos, animais ou plantas, de preferência não-europeus, inventados ou não.

Uma primeira versão de Poteaux d’angle (“Pilares de canto”) foi publicada em 1971 pelas edições de L’Herne e, aumentada com textos inéditos, republicada em 1978 pela Fata Morgana. A última versão data de 1981 (Gallimard) e a ela Michaux, aos 82 anos, acrescentou duas novas partes e um poema final. O livro totaliza quatro partes, quatro pilares que definem espaços de insubordinação em forma de aforismos, preceitos e considerações variadas. São recomendações endereçadas muitas vezes a um “tu” no imperativo, disparadores de meditação de um livro de sabedoria que faz parte de uma longa e antiga linhagem. Aqui, porém, a moralidade é paradoxal, inverte os lugares comuns e fornece “ensinamentos contra o ensinamento”, anti-sabedoria que ensina sabedoria, como observa Chloé Hunzinger. Em suma, aforismas contra toda e qualquer acomodação. Espécies de vacinas.

Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, desenha, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Universidade Federal de São Paulo. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento, para a qual fez também traduções. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR). Traduziu os aforismas poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot. Na escamandro, publicou a tradução de Amazonia he visto (“Amazônia eu vi”), de José Muchnik, e poemas seus. Atualmente está preparando uma antologia de escritoras de língua francesa (poesia).

Henri Michaux, por Jean Dubuffet

* * *

Aprende tão somente com reservas.

Toda uma vida não basta para desaprender o que, ingênuo, submisso, tu deixaste que te colocassem na cabeça – inocente! – sem pensar nas consequências.

N’apprends qu’avec réserve.

Toute une vie ne suffit pas pour désapprendre, ce que naïf, soumis, tu t’es laissé mettre dans la tête – innocent! – sans songer aux conséquences.

§

Sem pressa com teus defeitos. Não vás corrigi-los inconsideradamente.

O que colocarias no lugar?

Avec tes défauts, pas de hâte. Ne va pas à la légére les corriger.

Qu’irais-tu mettre à la place?

§

Realização. Não demais. Apenas o necessário para que te deixem em paz com as realizações de modo que possas, sonhando, só para ti, logo entrar no irreal, no irrealizável, na indiferença à realização.

Réalisation. Pas trop. Seulement ce qu’il faut pour qu’on te laisse la paix avec les réalisations, de façon que tu puisses, en rêvant, pour toi seul, bientôt rentrer dans l’irréel, l’irréalisable, l’indifférence à la réalisation.

§

Vai até o fim dos teus erros, pelo menos de alguns deles, para poder observar bem de que tipo são. Se não, parando no meio do caminho, irás sempre cegamente retomar a mesma espécie de erros, de uma ponta da vida à outra; certas pessoas chamarão isso de teu “destino”. O inimigo, que é tua estrutura, força-o a se descobrir. Se não puderes entortar teu destino, não terás sido mais do que um apartamento alugado.

Va jusqu’au bout de tes erreurs, au moins de quelques-unes, de façon à en bien pouvoir observer le type. Sinon, t’arrêtant à mi-chemin, tu iras toujours aveuglément reprenant le même genre d’erreurs, de bout en bout de la vie, ce que certains appeleront ta “destinée”. L’ennemi, qui est ta structure, force-le à se découvrir. Si tu n’as pas pu gauchir ta destinée, tu n’auras été qu’un appartement loué.

§

Aconteça o que acontecer, nunca te deixes levar – erro supremo – pela crença de que és o mestre, nem mesmo um mestre do mal pensar. Resta muito a fazer, enormemente, quase tudo. A morte colherá um fruto ainda verde.

Quoi qu’il t’arrive, ne te laisse jamais aller – faute suprême – à te croire maître, même pas un maître à mal penser. Il te reste beaucoup à faire, énormément, presque tout. La mort cueillera un fruit encore vert.

§

… Bobos por terem sido inteligentes cedo demais. Não te apresses rumo à adaptação.

Guarda sempre uma reserva de inadaptação.

… Bêtes pour avoir été intelligents trop tôt. Toi, ne te hâte pas vers l’adaptation.

Toujours garde en réserve de l’inadaptation.

§

É preciso um obstáculo novo para um saber novo. Vigia periodicamente para suscitar obstáculos para ti, obstáculos para os quais deverás encontrar uma parada… e uma nova inteligência.

Il faut un obstacle nouveau pour un savoir nouveau. Veille périodiquement à te susciter des obstacles, obstacles pour lesquels tu vas devoir trouver une parade… et une nouvelle intelligence.

§

Caído na água, um homem afunda. A corrente o gira, o revira, o afunda, o leva. Ele não voltará mais à superfície. Em todos os orifícios a água se apressa, penetrou irreversível, fazendo barragem em volta. Pulmões bloqueados, a respiração não está em funcionamento. Uma única aspiração intempestiva tampou tudo. Outras são impossíveis. Seria levantar um muro. Alguns segundos faltam, o tempo já não está mais defronte, mais para trás apenas. A vida inteira parece desfilar (erro, somente acontecimentos dos mais banais, bagatelas outrora estimadas importantes, se mostram uma última vez, passando vivamente uma após a outra).

A impressão de futuro não é mais continuada, aquela que somente a respiração ininterrupta sustentava, proporcionalmente.

Do lado de fora, pessoas com seu “presente” completo, em bom estado, com o conforto (sem perceber) de respirações regulares, fazedoras de futuro, passeiam inconscientes possuidoras do indispensável e, venturosas ou crispadas, sonham com o superficial, com a superfetação.

Tombé à l’eau, un homme s’enfonce. Le courant le roule, le retourne, l’enfonce, l’emporte. Il ne reviendra plus à la surface. À tous les orifices, l’eau se presse, a pénétré irréversible, faisant barrage tout autour. Poumons bloqués, la respiration est hors de fonctionnement. Une seule aspiration intempestive a tout bouché. D’autres sont impossibles. Ce serait un mur à soulever. Quelques secondes manquent, déjà le temps n’est plus en face, n’est plus qu’en arrière. La vie entière paraît défiler (erreur, seulement de sacrés petits faits divers, bagatelles autrefois trouvées importantes, se montrent une dernière fois, passant vivement à la file).

L’impression d’avenir n’est plus continuée, que seule la respiration ininterrompue soutenait, à mesure.

Dehors des gens avec leur “présent” complet, en bon état, avec le confort (sans le remarquer) de respirations régulières, faiseuses d’avenir, se promènent inconscients possesseurs de l’indispensable, et béats ou crispés rêvent au superficiel, au superfétatoire.

§

Uma certa aranha toda manhã faz na natureza e em todo local que lhe permita uma teia admiravelmente regular. Após a ingestão de um extrato de cogumelo alucinógeno – que por artimanhas lhe fizeram tomar – ela começa uma teia cujas espiras pouco a pouco não se seguem mais e saem tortas, e tanto mais quanto a quantidade absorvida é mais considerável: uma teia de louca. Partes cedem, se enrolam, Zygiella notata, é seu nome, não para antes de ter obtido a dimensão habitual, mas tornou-se incapaz de seguir seu plano, um plano que porém não data de ontem, mas de dezenas ou de centenas de séculos, passando intacto e perfeito de mãe a filha, ela comete erros, duplicações, deixa buracos em alguns lugares, justo ela, tão cuidadosa, e segue adiante. As últimas espiras são um balbucio, uma vertigem, é como se ela tivesse sido tomada por um assombro. Obra em ruína, mal sucedida, humana. Aranha tão próxima de ti agora. Ninguém sobre a droga exprimiu mais justamente, mais diretamente o transtorno dos enredamentos. Como irmão, olha suas ruínas em fio. Mas afinal o que ela, Zygiella, viu?

Une certaine araignée chaque matin fait dans la nature et en tout lieu qui s’y prête une toile admirablement régulière. Après ingestion d’un extrait de champignon hallucinogène – que pas ruse on lui a fait prendre – elle commence une toile dont petit à petit les spires ne se suivent plus et partent de travers, et d’autant plus que la quantité absorbée est plus considérable: une toile de folle. Des parties s’affaissent, s’enroulent, Zygiella notata, c’est son nom, ne s’arrête pas avant d’avoir obtenu la dimension habituelle mais, devenue incapable de suivre son plan, un plan qui pourtant ne date pas d’hier, mais de dizaines ou de centaines de siècles, passant intact et parfait de mère en fille, elle commet des erreurs, des redoublements, ailleurs laisse des trous, elle, si soigneuse, et passe outre. Les dernières spires sont un balbutiement, un vertige, c’est comme si elle avait eu un éblouissement. Oeuvre en ruine, ratée, humaine. Araignée si proche de toi maintenant. Nul sur la drogue n’a plus justement, plus directement exprimé le trouble des enchevêtrements. En frère, regarde ses ruines en fil. Mais qu’a-t-elle donc vu, Zygiella?

§

No campo, no canto do quarto, vês um rato se mexer. Ou seria somente um farrapo que o ar fez tremer? Às vezes rato, às vezes farrapo.

Aquele que ainda nunca matou transpira, tomado de mal-estar e de uma desviante emoção inesperada que se aproxima inclusive da vertigem.

A virgindade ainda intacta (quanto ao assassinato) recebe uma tentação, um choque. Cheias de problemas, as virgindades.

A frágil colunazinha de pequenas vértebras que faz permanecer inteiro o pequeno animal explorador e impudente como toda a sua espécie, desrespeitosa do homem, ah! se um golpe sobre o dorso lhe fosse desferido, seria o fim dessa irritante vida ao rés do chão.

Logo algo de inconfessável toma em você proporções enormes, as proporções de uma guerra! Por um rato! Assim trabalha a irresolução. Vamos, aja, um rato, essa coisa não vai gritar tão forte. Mas o problema permanece: uma virgindade deve ser vencida ou conservada? Decide-te, o rato não espera… Ele já se safou.

Também ele vivia uma aventura premente que, como indivíduo de ação, resolveu agilmente.

À la campagne, dans le coin de la chambre tu vois remuer un rat. Ou serait-ce seulement une loque que l’air a fait frissonner? Tantôt plus rat, tantôt plus loque.

Celui qui n’a encore jamais tué transpire, pris de malaise et d’une devoyante émotion inattendue qui approche même du vertige.

La virginité encore intacte (quant au meurtre) reçoit une tentation, un choc. Pleines de problèmes, les virginités.

La frêle colonette de petites vertèbres qui fait tenir ensemble le petit animal fureteur et impudent comme toute son espèce, irrespectueuse de l’homme, ah! si un coup sur le dos lui était asséné, c’en serait fini de cette irritante vie au ras du sol.

Déjà de l’inavouable prend en toi des proportions énormes, les proportions d’une guerre! Pour un rat! Ainsi travaille l’irrésolution. Allons, agis, un rat, ça ne va pas crier tellement fort. Mais le problème demeure: une virginité doit-elle être vaincue, ou gardée? Décide-toi, le rat n’attend pas… Il a déjà filé.

Lui aussi vivait une aventure pressante qu’en individu d’action il résolut lestement.