XANTO|Hans Arp, por José Pierre

De la famille des étoiles (1965)

“São quinze pro verão”

O primeiro livro ilustrado por Arp, conhecido por poucos, é uma tradução francesa do Bhagavad-Gîtâ, editada em 1914 pela Librairie de L’Art Indépendant, em Saint-Amand (Cher). Apesar da sua originalidade para a época, as ilustrações, minúsculas vinhetas aracnídeas perfeitamente desapegadas de qualquer preocupação figurativa, e apesar de serem o primeiro testemunho que nos restou dessa ruptura com o “modelo exterior”, não é só a elas que devemos dar atenção. O Bhagavad-Gîtâ ou canto do bem-aventurado, livro sagrado indiano que faz parte da epopeia divina do Mahâbhârata, de fato desenvolve conceitos fundamentais do hinduísmo, dentre os quais o da transmigração, que desempenha um papel fundamental. Resumidamente, a crença em um ciclo de encarnações sucessivas acarreta duas possibilidades: “por um lado, a transmigração (samsâra) sem fim, condição normal da existência; por outro, a possibilidade de se libertar para sempre dessa transmigração, quer dizer, a aquisição do nirvâna, para aqueles que compreenderam a fundo a estrutura das coisas” [1].

This image has an empty alt attribute; its file name is arp_gita.jpg

This image has an empty alt attribute; its file name is arp_gita2.jpg
Portfolio with 12 etchings – I, RUE GABRIELLE”. Douze eaux-fortes originales de Jean Arp. Préface de Michel Seuphor. Paris, Editions XXe siècle (1958).

Parece-me, e essa é a razão da digressão precedente, que este dilema está no coração da obra poética e plástica de Hans Arp. O sâmsara efetivamente implica uma instabilidade contínua do ser que se reveste dos envelopes heterogêneos sob os quais, um após o outro, persegue-se um único destino; através disso é afirmada indiretamente a unidade do mundo vivo, sendo que as barreiras entre os reinos são menos custosas do que aquilo que as arruína. Esse talvez seja o mais frequente espetáculo que nos é oferecido pela poesia de Hans Arp, espetáculo de uma cadeia de metamorfoses inelutáveis:

numa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e assim segue
sem fim

que se conclui com uma constatação de identidade entre as diferentes formas da natureza:

as pedras são vísceras
bravo bravo
a pedras são troncos de ar
as pedras são galho d’águas 

ou ainda:

as orelhas os narizes as bocas as cabeças os pés
são pedras

a propósito do quê não podemos deixar de sonhar com Novalis:

Tornar-se flor, animal, pedra, estrela…

e, é claro, com a famosa frase liminar do quarto dos Cantos de Maldoror:

É um homem ou uma pedra ou uma árvore que vai                                      [começar o quarto canto.

A originalidade de Hans Arp está em ter tentado apreender diretamente os seres e as coisas no nível da sua indiferenciação original, proposição parcialmente confirmada, como é sabido, pelas descobertas da embriologia moderna. Isso revela-se mais particularmente em seus relevos e melhor ainda em suas esculturas, onde a pedra, denominador comum das metamorfoses, que se perpetua até ele passando por Novalis e Lautréamont, permite fixar de maneira duradoura o avatar terminal, ou primordial…[2] Podemos nos perguntar justamente se não se trata, da parte do escultor, de um meio de interromper a cadeia de mutações para atingir, através do estabelecimento da identidade dos possíveis no estado de sua indiferenciação, a plenitude e a interrupção da História, ou seja, o nirvâna. Mas a vontade do Arp escultor parece mais tender à abolição entre as coisas criadas pelo homem e as coisas criadas pela natureza, — entre os dois sentidos da palavra criação — o que é atestado particularmente pela Sculpture à être perdue dans un bois (1932)[3], a respeito da qual poderíamos falar numa tentativa de conciliação entre a via das encarnações obrigatórias e a fuga pela imobilidade.

This image has an empty alt attribute; its file name is sculptureaetreperduedansunbois_tate.jpg
Sculpture à être perdue dans un bois (1932)

Isso seria o que em Arp, para mim, compete ao “ponto supremo” apontado por Breton no Segundo manifesto do surrealismo.

Pois os momentos em que Arp parece obedecer à tentação do nirvâna são aqueles em que ele é levado pelo pessimismo e pela recusa da vida proteiforme: por exemplo em 1915, período de suas obras mais rigorosas, mais geométricas (“Estas obras são construídas com linhas, superfícies, formas e cores que procuram atingir, para além do humano, o infinito e o eterno”). Sem dúvida esses momentos correspondem à obsessão com a morte e seu reverso, a crise mística, especialmente evidentes no início da Primeira Guerra Mundial, depois do falecimento de Sophie Taeuber (1943) e em suas esculturas (Seuils, sobretudo) e poemas (Acalma-línguas) dos seus últimos anos.

This image has an empty alt attribute; its file name is seuils_arp.jpg
Seuil-Configuration (1959)

Entretanto, é bastante nítido que a essa tentação se opõe com força o que serei tentado a chamar de Feliz Arpádia. Contrariamente ao Hindu que, condenado à transmigração em série se desvia espantando desse destino que ignora o apaziguamento e o repouso, Arp floresce plenamente na metamorfose. Poderíamos afirmar com ele que a analogia poética torna-se o caminho da felicidade, não de uma felicidade imaginária, de ordem psicológica, mas de uma felicidade verdadeiramente física, como a que se expressa nos exercícios de ginástica que ele nos faz testemunhar:

a cadeira sobe na mesa
o fogo sobe na cadeira
a voz sobe no fogo
o que fica por baixo da natureza cresce e monta                                      [em cima da natureza e
fala de cadeiras e mesas pegando fogo

e que além disso são realizados em sentido ascendente (tanto física como moralmente falando) como prova o célebre e admirável dístico:

o rouxinol regar os estômagos os corações os cérebros                                [as tripas
ou seja os lírios as rosas os cravos os lilases

Aos que vierem me dizer que isso não concerne em nada os seres humanos, contentarei-me em opor este fragmento de um poema de 1960:

Uma mulher e seus doze filhos
dormem sãos e salvos
e acordam lago habitado
por ninfas sombrias
e derramando treze rios selvagens. 

Um apetite de felicidade imenso, cujo humor é somente um de seus aspectos, o mais deslumbrante, sem dúvida. O humor de Hans Arp… haveria tanto a se dizer sobre isso que prefiro transcrever

O MESTRE PREGADOR

Quando chego
meus amigos largam tudo
e correm
para me ver pregar.
Meu martelo e eu
somos um.
Só sei pregar pregos
em miolo de pão
prego tão bem
que meus amigos esquecem de tudo
e literalmente são transportados
transfigurados em puro azul.
É devagar devagarinho
que eles reaparecem
que eles se reconstituem
em azul corrente
depois em carne e osso
depois que parei de pregar meus pregos
no miolo de pão.

Um poema impressionante, que lembra a pseudo-ingenuidade do Arenque defumado de Charles Cros, e tem sobretudo o mérito de evocar (humoristicamente) o poder mágico do ato criador (poético ou artístico), também capaz de metamorfosear os que alcançam penetrar na intimidade da obra…

Remeto quem pensou que eu queria provar que Arp é um poeta hindu de volta ao seu estábulo. Quis simplesmente demonstrar que a poesia de Arp é, ao lado da de Breton e de Péret, a mais essencialmente surrealista possível. Ao menos aos meus olhos. Não preciso dizer que admiro e é evidente que adoro muitos outros poetas surrealistas. Porém, Arp, Breton e Péret fazem com que a poesia surrealista não possa ser confundida com nenhuma outra. Por conta disso a recente publicação de Dias desfolhados deve ser saudada pelos surrealistas como um evento da mais alta importância.

Gostaria ainda de acrescentar que somente uma deplorável miopia (sim, isso existe) é capaz de impedir a percepção da espantosa unidade que, dos relevos aos papéis rasgados e das esculturas aos poemas, faz dos diversos produtos da atividade de Hans Arp um “mesmo bloco de pedra”. “Este bloco sonha, suspenso no ar, imóvel. Ele está ali, imóvel, no lusco-fusco, e sozinho engendra fantasmas”.

José Pierre

In: L’archibras 2. Les surréalisme en octobre 1967. Dir. Jean Schuster. Le Terrain Vague: Paris, 1967. Tradução inédita de Natan Schäfer.

NOTAS

[1] P. Masson-Oursel et Louise Morin. « Mythologie de l’Inde», in: Mythologie générale, Larousse 1935.

[2] Não ignoro que a modelagem do gesso, ainda mais que o talho direto, constitui o percurso escultural essencial de Hans Arp. Mas a passagem do estado pastoso, quase líquido, ao estado sólido, próprio do gesso, responde melhor que o trabalho em mármore às intenções de metamorfose.

[3]Nota do tradutor: na verdade a escultura em questão se chama “Sculpture à être perdue dans la forêt”.