Mika Andrade

mika
Mika Andrade nasceu em Quixeramobim, em 1990, reside em Fortaleza desde os quatro anos de idade. Publicou dois livros de forma independente: Descompasso e Poemas Obsessivos; organizou a antologia erótica de poetas cearenses O Olho de Lilith (Selo Fernina, 2019). Tem seus textos publicados em sites, zines e antologias. Instagram: @_mika.andrade_
*

ÁGUA

eu continuo estática à beira-mar
aguardando o seu retorno

as ondas não quebram na praia –
quebram em mim

não há mais espumas
é tudo um lago plácido

você é um barco suspenso
na água

um vislumbre…

o mar em nossos olhos

§

MIRAGEM

nunca me senti radiante e reluzente
como o sol perante o deserto
porém já me senti árida e seca
um vazio enorme me ocupando
uma poeira constante cegando meus olhos
minha boca rachada por falta de ternura
e saliva – miragem, desejo e delírio

§

seu gosto em minha boca permanece
devoro sua presença
me alimento do seu líquido

percorro espaços
conheço toda sua geografia

seu corpo é uma paisagem
utópica

§
com lascívia e devoção
me ajoelho diante de você
e junto na palma de minhas mãos
o seu sexo
recebo-o como quem segura
a hóstia consagrada
dissolvo em minha boca
e fecho os olhos em comoção

o sexo
é também um estado de graça

§

a poeta anda em falso

se move devagar
como quem absorve
versos suspensos
no ar

questiona como atravessar
o isolamento ou adiar
a saudade

calcula a distância da falta
e tenta se manter serena

observa o silêncio que atravessa o momento

“nada mais será como antes”
outra poeta nos fala

exala o cheiro da náusea
desses novos tempos
me corto
no espinho da rosa
que brotou no asfalto

respiro fundo:
invoco o amor
e arte para nos salvar

§

ii
eu leio a poeta
como quem come um prato quente

com calma engulo suas poemas
me queimo
a língua
o corpo inteiro

suas poemas-brasas
me deixam em vermelho-vivo
escorre entre as pernas

o sangue
o gozo

de se parir
uma poema
também

*