Ricardo Domeneck

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Em maio de 2020, em meio à pandemia, apareceu em meu pescoço um grande calombo. Meu médico olhava com cara de preocupação, e outro amigo, também médico, mais tarde me disse que já esperava o pior, dado meu intenso e irrefreável tabagismo. Num dia, ao final do mês, o indolor calombo tornou-se uma bola de carne dolorosíssima. Era uma pedra que se formara em uma de minhas glândulas salivares submandibulares, obstruindo a liberação dos fluidos. A coisa toda se tornara um abscesso. Operação na garganta, três dias entubado e inconsciente, mais quatro dias num quarto de enfermaria, com catéteres nas duas mãos para injeções e outro no pescoço para drenagem. Foi aí, no Charité, o Hospital Universitário de Berlim, que a maior parte dos pequenos poemas da série ‘A Senhora Enfermeira’ surgiu. Alguns vieram nos dias subsequentes. A série, dedicada a Angélica Freitas, será publicada este ano pela Editora 7Letras, unida a outro pequeno livro. A coisa toda será intitulada ‘O morse desse corpo’. Agradeço a André Capilé e aos outros editores da Escamandro por publicar essa pequena seleção na revista.

* * *

A Senhora Enfermeira [excertos]

Minha Senhora Enfermeira,
como posso explicar
a dor em língua estrangeira?
Renomear o corpo?

Dizer a si e a ti como dói,
em língua não-materna?
Enumero aqui a escala da dor:
um nove sem nome.

A língua-da-dor é infantil,
ó Senhora Enfermeira,
a vontade é apontar com o dedo:
dói AQUI, AQUI dói.

*

A Senhora Enfermeira adentra o quarto,
move e troca apetrechos.
A estrela-próxima auxilia na desinfecção
das feridas do corpo.

É a parteira e a ama-de-sangue
de um homem de quarenta anos
nessa quarentena. Ela ri gostoso
dos uis e ais do coitado paciente:

“Homem é bicho fraco.
Não aguenta a dor menor.”

Tem sempre razão a Senhora Enfermeira.

*

O coitado paciente solta
outro ui, outro ai
e murmura, doloroso:

“Senhora Enfermeira,
sinto-me como Nabucodonosor
nos dias em que foi feito
uma besta do campo.

Senhora Enfermeira,
sinto-me como Tirésias
com as despencadas tetas
frente a uma cidade em chamas.”

__ Ora, não exageremos.

É o que diz a Senhora Enfermeira.

*

Senhora Enfermeira,

sei proibidas todas as visitas,
mesmo as de anjos a profetas
e cavaleiros a essa rainha velha
sob teus cuidados, ó ama-de-morfina.
Que se detenha essa pandemia
que não escolhe quem infecta
enquanto decidimos quem definha.

Vivia eu já em quarentena
em minha sozinhez franciscana
porque sabia que as paixões
não fazem cursos à distância
e o coração memoriza canções
só de fossa — nesses violões
sagrados por correspondência.

*

Minha Senhora Enfermeira,
essas agulhas são flechas
que perfuram meu corpo
onde encontras minhas veias.

Sobre elas pousam borboletas
de plástico, para tuas faixas
amorosas, ao redor das feridas,
na pele melhor prendê-las.

De minhas mãos, seus dorsos,
sangue não vaza, mas se infiltra,
contra minúsculos demônios
que me afligem, o líquido alheio

aos que produzo nas glândulas,
agora que a Santa Médica
do corpo extirpou-me uma
onde crescera sediciosa pedra.

Do pescoço ora pinga a sujeira
que a essa maca me trouxera,
São Sebastião em decúbito supino
sem libido ou concupiscência.

É um exercício de martírio
lento, lembra-me o corruptível
corpo — onde salivante carrego
a glândula-fantasma a menos.

 

Ricardo Domeneck é um poeta, contista e ensaísta brasileiro, nascido em Bebedouro, São Paulo, em 1977. Lançou as coletâneas de poemas ‘Carta aos anfíbios’ (Bem-Te-Vi, 2005), ‘a cadela sem Logos’ (Cosac Naify/7Letras, 2007), ‘Sons: Arranjo: Garganta’ (Cosac Naify/7Letras, 2009), ‘Cigarros na cama’ (Berinjela, 2011), ‘Ciclo do amante substituível’ (7Letras, 2012) e ‘Medir com as próprias mãos a febre’ (7Letras, 2015), ‘Odes a Maximin’ (Garupa, 2018) e ‘Doze cartas’ (Garupa, 2019).. Em prosa lançou ‘Manual para melodrama’ (7Letras, 2016) e ‘Sob a sombra da aboboreira’ (7Letras, 2017). Foi coeditor das revistas ‘Modo de Usar & Co.’ (2007-2017) e ‘Cabaret Wittgenstein’, assim como colunista da ‘Deutsche Welle Brasil’. Colaborou com revistas como ‘Inimigo Rumor’ (Rio de Janeiro) e ‘Entretanto’ (Recife), assim como ‘Quimera’ (Espanha), ‘Asymptote’ e ‘Words Without Borders’ (Estados Unidos), ‘Belletristik’ (Alemanha) e ‘Lyrikvännen’ {Suécia}, entre outras. Trabalha com vídeo e poesia vocal, apresentando este trabalho em espaços como o Museo Reina Sofía (Madri), Museo Experimental El Eco (Cidade do México) e Akademie der Künste (Berlim). Vive e trabalha desde 2002 em Berlim, na Alemanha, onde foi publicada em 2013 pela editora Verlagshaus Berlin uma antologia de seus poemas, ‘Körper: ein Handbuch.’, traduzidos para o alemão por Odile Kennel. Na Espanha, foi lançada a tradução completa de seu quinto livro, sob o título ‘Ciclo del amante sustituible’ (Barcelona: Kriller71 Ediciones, 2014), com tradução de Aníbal Cristobo, e, na Holanda, outra seleção, ‘Het verzamelde lichaam’, pela Uitgevereij Perdu em tradução de Bart Vonck. Seu mais novo livro, ‘O morse desse corpo’, está no prelo.