Danez Smith, por André Capilé

Poet-Danez-Smith

Danez Smith é poeta & performer, não-binário & soropositivo, nascido em St. Paul, Minnesota. Publicou Homie (Gaywolf Press, 2020), Don’t Call Us Dead (Graywolf Press, 2017) & [insert] boy (YesYes Books, 2014). Com publicação prevista no Brasil, ainda este ano [2020] do livro Não Digam que Estamos Mortos [Don’t Call Us Dead], pela Bazar do Tempo, Danez aportará no país na próxima edição da FLIP. O conjunto de poemas na presente obra trata, em direto, de temas como a violência que acomete jovens negros estadunidenses, bem como a dinâmica dos relacionamentos e experiências homoafetivas, também tocando em aspectos das vivências das pessoas com hiv/aids.

Contundentes e necessários, os poemas de Danez conversam de modo muito próximo à realidade brasileira em vários de seus fulcros. Em um breve exercício de contextualização, assumindo a triste rotina de não apagar, de vez, a existência dos nossos mortos, se se trocassem os nomes arrolados em “dear white america” por João Pedro, Marcos Vinícius, Miguel, os mortos na Candelária, os 12 jovens mortos na chacina do Cabula, e seria possível continuar a interminável a contagem dos cadáveres, estaria disposta a sinistra simetria da necropolítica que assombra esses corpos.

“dinosaurs in the hood”, que começa como espécie de peça de comédia, rapidamente gira sobre os próprios saltos e estabelece incômodos ao mudar o enfoque da graça para os sentidos graves da reflexão sobre protagonismo negro, sequestros de imaginário por via dos cenários de composição da maquinaria audiovisual e as possibilidades de um sujeito preto, desde a infância, em manter-se vivo. Importa dizer que Danez joga sempre com muita perícia no manejo do verso e das referências, o que tentei responder o melhor possível e contribuir para o campo — no caso desse poema, em especial, devo atribuir a Sergio Maciel a solução do título; embora eu soubesse a fonte da referência, “boyz n the hood” [os donos da rua, no Brasil], foi com ele que cheguei [ele soprou] “os dinos”.

“dear white america”, bem como “dinosaurs in the hood”, são dois dos poemas de Não Digam que Estamos Mortos. “Alternate Names for a Black Boys” comparece aqui como bônus track. Todos os textos estão acompanhados de vídeos que trazem Danez em ação. Não deixe de assistir, mesmo.

Cabe o registro de agradecimento à Ana Cecília Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo, pela cessão dos poemas ora aqui publicados. Também à Maria Graciema de Andrade & Catarina Lins pelo cuidado com a edição do livro no Brasil.

Agradeço, ainda, e nunca tarde, às generosas conversas travadas com Guilherme Gontijo Flores ao longo do processo de tradução do livro, com quem mantive interlocução frequente. Também ao sempre presente Paulo Henriques Britto, meu professor, meu mestre maior.  

* * *    

dear white america

i’ve left Earth in search of darker planets, a solar system revolving too near a black hole. i’ve left in search of a new God. i do not trust the God you have given us. my grandmother’s hallelujah is only outdone by the fear she nurses every time the bloodfat summer swallows another child who used to sing in the choir. take your God back. though his songs are beautiful, his miracles are inconsistent. i want the fate of Lazarus for Renisha, want Chucky, Bo, Meech, Trayvon, Sean & Jonylah risen three days after their entombing, their ghost re-gifted flesh & blood, their flesh & blood re-gifted their children. i’ve left Earth, i am equal parts sick of your go back to Africa & i just don’t see race. neither did the poplar tree. we did not build your boats (though we did leave a trail of kin to guide us home). we did not build your prisons (though we did & we fill them too). we did not ask to be part of your America (though are we not America? her joints brittle & dragging a ripped gown through Oakland?). i can’t stand your ground. i’m sick of calling your recklessness the law. each night, i count my brothers. & in the morning, when some do not survive to be counted, i count the holes they leave. i reach for black folks & touch only air. your master magic trick, America. now he’s breathing, now he don’t. abra-cadaver. white bread voodoo. sorcery you claim not to practice, hand my cousin a pistol to do your work. i tried, white people. i tried to love you, but you spent my brother’s funeral making plans for brunch, talking too loud next to his bones. you took one look at the river, plump with the body of boy after girl after sweet boi & ask why does it always have to be about race? because you made it that way! because you put an asterisk on my sister’s gorgeous face! call her pretty (for a black girl)! because black girls go missing without so much as a whisper of where?! because there are no amber alerts for amber-skinned girls! because Jordan boomed. because Emmett whistled. because Huey P. spoke. because Martin preached. because black boys can always be too loud to live. because it’s taken my papa’s & my grandma’s time, my father’s time, my mother’s time, my aunt’s time, my uncle’s time, my brother’s & my sister’s time . . . how much time do you want for your progress? i’ve left Earth to find a place where my kin can be safe, where black people ain’t but people the same color as the good, wet earth, until that means something, until then i bid you well, i bid you war, i bid you our lives to gamble with no more. i’ve left Earth & i am touching everything you beg your telescopes to show you. i’m giving the stars their right names. & this life, this new story & history you cannot steal or sell or cast overboard or hang or beat or drown or own or redline or shackle or silence or cheat or choke or cover up or jail or shoot or jail or shoot or jail or shoot or ruin

                                                        this, if only this one, is ours.

 

cara américa branca

deixei a Terra em busca de planetas mais escuros, um sistema solar rodando bem perto de um buraco negro. parti em busca de um novo Deus. eu não confio no Deus que nos foi dado. o aleluia de vovó só é superado pelo temor que ela nutre toda vez que o verão sangueseboso engole outra criança que costumava cantar no coral. leva seu Deus daqui. embora suas canções sejam lindas, seus milagres são inconsistentes. eu quero a fortuna de Lázaro para Renisha, quero que Chucky, Bo, Meech, Trayvon, Sean & Jonylah ressuscitem três dias após seus sepultamentos, seus fantasmas re-ofertados carne & sangue, carne & sangue re-ofertados a suas crias. deixei a Terra, tô tão de saco cheio do seu volta pra África, quanto do seu não enxergo raça. tampouco os álamos. não construímos seus barcos (embora deixássemos uma trilha de ancestrais pra nos guiar pra casa). não construímos suas prisões (embora sim, as construíssemos & também as lotássemos). não pedimos pra fazer parte da sua América (não somos a América, apesar de? seus frágeis nós, arrastando um vestido esfarrapado por Oakland?). firme não suporto o chão dos seus fundamentos. tô de saco cheio de chamar tua imprudência de lei. cada noite conto meus irmãos. & pela manhã, quando alguns não sobrevivem pra serem contados, conto as covas que deixaram. Estendo a mão ao povo preto & toco apenas o ar. seu truque de mestre, América. ora ele respira, ora não. abra-cadáver. macumba pra turista, feitiço que alega não praticar. dá logo uma pistola ao meu primo pra fazer o trampo por vocês. eu tentei, branquelos. tentei amá-los, mas passaram o funeral do meu mano fazendo planos prum cafezinho, falando alto demais ao lado de seus ossos. vocês deram uma olhada no rio inchado do corpo do menino depois da menina & depois da bofinha & pergunta: por que é que é sempre uma questão de raça? porque vocês insistem que seja sempre assim?! porque você marcou um asterisco no rosto lindo da minha irmã! chamou-a de bonita (pra uma garota negra)! porque cargas d’água meninas negras desaparecem sem nem um sussurro?! porque não há amber alerts pra meninas de pele âmbar! porque Jordan explodiu. porque Emmett assobiou. porque Huey P. falou. porque Martin pregou. porque meninos negros sempre podem ser espalhafatosos demais pra viver. porque tomaram o tempo do meu avô e da minha avó, o tempo do meu pai, o tempo da minha mãe, o tempo da minha tia, o tempo do meu tio, o tempo do meu irmão e da minha irmã . . . quanto tempo você quer pra alcançar seu progresso? eu deixei a Terra pra encontrar um lugar onde os da minha cepa possam estar a salvo, onde os negros não são senão pessoas da mesma cor que a terra boa e úmida, até que isso exprima alguma coisa, eu desejo a vocês, bem, desejo guerra a vocês, dou-lhes nossas vidas pra apostar nada mais. deixei a Terra & toco em tudo que pedem a seus telescópios pra lhes mostrar. estou dando às estrelas o nome certo. & esta vida & esta nova história, esta história que não podem nos roubar, nem vender ou lançar ao mar, nem enforcar, espancar ou afogar, nem adonar ou balizar, nem berrar, silenciar ou enganar, nem asfixiar ou disfarçar, nem prender ou atirar, prender ou atirar, prender ou atirar, nem arruinar

                                                  isso, ainda que apenas isso, é nosso.

 

 

§

dinosaurs in the hood

let’s make a movie called Dinosaurs in the Hood.
Jurassic Park meets Friday meets The Pursuit of Happyness.
there should be a scene where a little black boy is playing
with a toy dinosaur on the bus, then looks out the window
& sees the T. rex, because there has to be a T. rex.

don’t let Tarantino direct this. in his version, the boy plays
with a gun, the metaphor: black boys toy with their own lives
the foreshadow to his end, the spitting image of his father.
nah, the kid has a plastic brontosaurus or triceratops
& this is his proof of magic or God or Santa. i want a scene

where a cop car gets pooped on by a pterodactyl, a scene
where the corner store turns into a battleground. don’t let
the Wayans brothers in this movie. i don’t want any racist shit
about Asian people or overused Latino stereotypes.
this movie is about a neighborhood of royal folks —

children of slaves & immigrants & addicts & exile — saving their town
from real ass dinosaurs. i don’t want some cheesy, yet progressive
Hmong sexy hot dude hero with a funny, yet strong, commanding
Black girl buddy-cop film. this is not a vehicle for Will Smith
& Sofia Vergara. i want grandmas on the front porch taking out raptors

with guns they hid in walls & under mattresses. i want those little spitty
screamy dinosaurs. i want Cecily Tyson to make a speech, maybe two.
i want Viola Davis to save the city in the last scene with a black fist afro pick
through the last dinosaur’s long, cold-blood neck. But this can’t be
a black movie. this can’t be a black movie. this movie can’t be dismissed

because of its cast or its audience. this movie can’t be metaphor
for black people & extinction. This movie can’t be about race.
this movie can’t be about black pain or cause black pain.
this movie can’t be about a long history of having a long history with hurt.
this movie can’t be about race. nobody can say nigga in this movie

who can’t say it to my face in public. no chicken jokes in this movie.
no bullet holes in the heroes. & no one kills the black boy. & no one kills
the black boy. & no one kills the black boy. besides, the only reason
i want to make this is for the first scene anyway: little black boy
on the bus with his toy dinosaur, his eyes wide & endless

his dreams possible, pulsing, & right there.

 

os dinos da rua

vamos fazer um filme chamado Os Dinos da Rua.
um passeio pelo Parque dos Dinossauros Sexta-Feira em Apuros à Procura da Felicidade.
tem de haver uma cena em que um menininho negro brinca
com um Dino Papa Tudo no ônibus, depois olha pela janela
& vê o T. rex, porque tem que aparecer um T. rex.

não deixa o Tarantino dirigir isso. na versão dele, o menino brinca
com uma arma, a metáfora: meninos negros jogam com suas próprias vidas
o prenúncio de seu fim, a imagem cuspida e escarrada de seu pai.
bah, a criança tem um brontossauro ou triceratope de plástico
& esta é a prova de sua mágica ou de Deus ou de Papai Noel. quero uma cena

onde um pterodátilo caga no carro dos canas, uma cena
em que a loja da esquina se transforma num campo de batalha. não deixa
os irmãos Wayans neste filme. não quero nada dessa merda racista
sobre sujeitos asiáticos ou estereótipos exagerados de latinos.
este filme é sobre um bairro de nobres cidadãos —

filhos de escravos & imigrantes & drogados & exílio — salvando sua cidade
de dinossauros reais pacaralho. não quero um filme policial cafona mas progressista
com um herói Hmong, sexy e fodão, que tem uma parceira negra engraçada,
porém forte e imponente, fazendo o tira bom na fita. só que não vai ser estrelado
por Will Smith & Sofia Vergara. eu quero vovós de infantaria na varanda derrubando pterossauros

com as armas delas ocultas nas paredes & sob os colchões. eu quero dinossaurinhos
que babam histericamente. eu quero que Cecily Tyson faça um discurso, talvez dois.
eu quero que Viola Davis salve a cidade na cena final com um golpe de afropunho
atravessando o longo pescoço do último dinossauro de sangue frio. mas isso  não pode ser
cinema negro. isso não pode ser cinema negro. este filme não pode ser desprezado

por conta de seu elenco ou público. este filme não pode ser uma metáfora
pra pessoas negras & extinção. este filme não pode ser sobre raça.
este filme não pode ser sobre a dor do negro ou causar dor ao negro.
este filme não pode ser sobre uma longa história de haver uma longa história de mágoa.
este filme não pode ser sobre raça. ninguém pode dizer negão neste filme

se não pode dizer isso na minha cara em público.  sem piadas de frango neste filme.
sem buracos de bala nos heróis. & ninguém mata o menino negro. & ninguém mata o
menino negro. & ninguém mata o menino negro. além disso, a única razão
de eu querer fazer isso reside na primeira cena, de qualquer maneira: o menininho negro
no ônibus com seu Dino Papa Tudo, os olhos arregalados & no infinito

                             os seus sonhos possíveis, pulsando & bem ali.

 

 

§

bônus track

Tupac said,

“Did you hear about the rose
that grew from a crack in the concrete.
Proving nature’s law is wrong.
It learned to walk is wrong.
It learned to walk without having feet.
Funny it seems but by keeping its dreams
it learned to breath fresh air.
Long live the rose that grew from concrete
when no one else ever cared.”

Langston Hughes declared,
“I am the darker brother
Hold fast to dreams.
Black like me.
I am black.
I lie down in the shadows,
Black like me.
I to sing America,
My dark hands.
I am the darker brother.”

Alternative Names for Black Boys
or what we are sometimes called . . .

1. smoke above the burning bush
2. archnemesis of summer night
3. first son of soil
4. coal awaiting spark & wind
5. guilty until proven dead
6. oil heavy starlight
7. monster until proven ghost
8. gone
9. phoenix who forgets to un-ash
10. going, going, gone
11. gods of shovels & black veils
12. what once passed for kindling
13. fireworks at dawn
14. brilliant, shadow hued coral
15. (I thought to leave this blank
but who am I to name us nothing?)
16. prayer who learned to bite & sprint
17. a mother’s joy & clutched breath

And counting . . .

Will I be allowed
to hold fast to my dreams?
Will everyone smile along with me?
Bear deep into my eyes
and envision the great manancial
that I have the potential to be . . .
Or will you only see blackness
in whole of me?
Do you see me?

 

Tupac falou,

“Me escuta esta história da rosa
que brotou de um buraco no concreto.
Que só prova que as leis naturais se enganaram.
Aprendeu a caminhar neste engano.
Aprendeu a caminhar sem ter pés.
Até parece onda, mas mantendo seus sonhos
aprendeu a respirar ar puro.
Viva a rosa que brotou do concreto
quando ninguém mais dava importância.”

Langston Hughes declarou,
“Eu sou o irmão mais escuro
Agarre-se firme aos sonhos.
Negro como eu.
Eu sou negro.
Eu me assento nas sombras,
negras como eu.
Eu canto a América,
Minhas mãos escuras.
Eu sou o irmão mais escuro.”

Nomes Alternativos pra Meninos Negros
ou como chamam a gente de vez em quando…

1. fumaça sobre o arbusto em brasa
2. arquêmese da noite de verão
3. primogênito do terreno
4. hulha à espera de centelha & vento
5. culpado até que o provem morto
6. estelume a peso de petróleo
7. monstro até que o provem espectro
8. sumido
9. fênix a avoada nas cinzas
10. indo, indo, sumido
11. deuses das pás & negro manto
12. o que uma vez passou por ignição
13. fogos de artifício na alvorada
14. brilhante, sombreado coral
15. (Até pensei em deixar isso em branco
       mas quem sou eu pra nomear nós nada?)
16. reza que aprendeu morde & vaza
17. uma alegria de mãe & respiração ofegante.

E contando . . .

Me será permitido
agarrar firme meus sonhos?
Será que geral vai sorrir junto comigo?
Encara no fundo dos meus olhos
e vislumbra o belo manancial
que eu tenho potencial pra ser…
Ou será que tu só vê negritude
em todo meu corpo?
Você me vê?