Caetano Romão

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Caetano Sousa Romão nasceu em Ribeirão Preto (SP) em 1997. Mudou-se para São Paulo em 2015, cidade que vive desde então. Formou-se em 2018 pela Escola de Música do Estado de São Paulo em Música Popular (Acordeão) e está concluindo sua graduação em Letras pela Universidade de São Paulo. Escreve poesia e se interessa pelas relações entre texto, musicalidades e performance. Teve poemas publicados em revistas digitais e lançou sua primeira plaquete Canil em 2019.

* * *

SAPATOS DE ARAME

tinha eu a idade de dezenove anos
quando o amor me apanhou feito uma surra
fui ao chão é o que digo

não importava tanto que tivesse
o corpo todo empolado comido
amor pra mim aos dezenove anos
era picada de borrachudo cobrindo a pele inteira
mordida de carrapato no sumo
tanto que queimaram minhas roupas no fundo do quintal
cismavam com os fósforos dizendo
infestação assim só se remedia com querosene
ou saliva

eu pelado no quarto caçando
onde é que aqueles bichos abriam caminho em mim
na virilha no sovaco na nuca
o dedo tentando suas coceiras
nem havia unguento pra me agradar tamanha febre

tinha eu a idade de dezenove anos
e fiquei arregalado no meio da noite
nauseado
antecipando remela
estreitando no colchão
já me fazia a guerra por não saber
onde decidir as mãos

eu por exemplo
tinha a idade de dezenove anos
quando o amor me infernizou de azul a paisagem
e dirão que nem era manhã
eu tinha as cuecas estendidas pra secar na janela

§

OS JOGOS DE AZAR

às vezes me preservo
noutras ele enfiava as mãos dentro da minha calça
da melhor maneira

um homem de um olho só
e meias palavras
o melhor dos homens
certamente há de comover

eu dizia
teodoro nunca conheci nenhum teodoro como é que são
quando eu devia dizer isso aqui é um assalto
te tomo isso também
encardir
dar um soco na boca do estômago do seu nome

trago ele dentro da minha cueca
e o uso violento que à noite eu faço disso
não é escambo
não é esmola
é uma troca arriscada de reféns

§

ESTIVE NO CINEMA CAUIM

uma ou duas vezes. Rapazes que nem eu
cheiravam cola e chutavam latinhas de soda
com jeito de te espero na saída. Ribeirão com seu rosto de canavial
cortado. Bastava isso pra que seus meninos trouxessem
a bermuda marcando as coxas. Mascavam chicletes de canela,
punham apelido um no outro, se passavam a mão. Cada baforada
dando zoeira na vista e formigando um volume maior
nos pentelhos. Acho que ali, o sol sempre bateu
maior do que a nuca. Por isso, esses mesmos rapazes
se chupavam atrás das caçambas da praça 7 de Setembro,
por isso esporravam no muro de trás da Beneficência Portuguesa,
por isso conheciam cada paralela da Getúlio Vargas como se conhecem
a própria saliva. Com eles aprendi a segurar uma cidade
como se deve: pelo gargalo. Estive todas as tardes no Cinema Cauim,
tinham gosto de asfalto na boca.

§

JÓQUEI

ser esse que te grita do outro lado da rua
dá bandeira palpite o braço a torcer
agir assim
como se te conhecesse de ontem

a porta encostada sem passar a tranca
itinerários cartelas os dados rolando no forro
do chão

chego em galope manco
varado de tanta cancela
cabelo agora aparado
como em tempo dos torneios

era mentira então
que já era ida a moda das apostas
suor entabulado em placar

um sujeito assim se mede é pela gana
se agarra pelo tornozelo
distribui afeição no muque

nota: não ser esse pelas arquibancadas e murais
de lá pediam minha cabeça
menos você
você conferia o troco
e na falta de aceno bravata pódio
me vinha:
de mim não conheço minhas costas