John Ashbery, por Júlia Manacorda

ashbery sala de estar

Valentine e Comoção dos Pássaros

Algumas coisas sempre foram ditas e serão ditas sobre John Ashbery, como por exemplo, foi um poeta estadunidense, nascido no estado de Nova York, especificamente, em Rochester, cresceu em Sodus, onde seu pai, Chester, mantinha um fazenda de laranjas, se tornou a quiz kid de sua cidade aos 14, ou que foi casado com David Kermani por 38 anos, e que desde que se conheceram todos os livros de Ashbery – com algumas exceções – são dedicados a David, inclusive o último, Commotion of the Birds, onde-se pode ler: “For David, Again”. Na verdade, tudo o que foi dito sobre John Ashbery está destinado a se repetir, como se esta repetição fosse em si um comentário sobre a obra de John, afinal, Ashbery notou aos 16 anos que todos os seus poemas eram iguais, e ele estava ok com isso. Dito isso, repetirei algumas coisas que já foram ditas sobre Ashbery ou coisas que ele disse sobre si enquanto comentava outros ou si mesmo, por exemplo, “o poema é um hino à possibilidade, uma celebração do fato de que o mundo existe, de que coisas acontecem.” disse John Ashbery ao falar de Gertrude Stein, ou ainda as linhas de Stein são um mundo, e um mundo habitado por pessoas, e como pessoas, às vezes, são agradáveis ou irritantes, ou brilhantes ou tediosas, e tal como pessoas, raramente, fazem sentido, de novo, assim como pessoas, não existe real escapatória delas, das linhas de Stein. De certa forma, o que John está dizendo é que possivelmente encontraremos as meditações de Madame Stein no mundo. Você pode esbarrar com elas, como se fossem uma surpresa agradável. Melhor parar por aqui, não quero me prolongar, pois como Lerner diz: poemas de Ashbery são sempre poemas sobre o tempo, ou o sentido do tempo e que isto se dá porque a experiência que se tem acesso ao ler John é a própria experiência de se ler John Ashbery, assim, é a partir dessa experiência da experiência que Ash formula seu comentário sobre o tempo, e deliberadamente, performa um efeito de imediaticidade e incompreensão – tal como se dá nossa relação com o mundo, o que acontece, obviamente, porque o poeta John Ashbery está no mundo, e também o seu leitor. Me faltou falar que os pronomes, que a aparente inconstância com que lida com eles é uma forma de promover alteridade. E poderia ainda dizer como Ashbery mobiliza clichés como se estes nos fossem estranhos, ou como faz da novidade algo familiar, é, simplesmente, assim, elencando oxímoros que ele consegue que nós, leitores, nos reconheçamos em sua poesia, bem, mas isso já foi dito, como todos os poemas de Ashbery são iguais, quase todos sobre Amor, ou, ao menos, sobre Aspiração que, alguns dizem ser o mesmo que Amor.

Muitas muitas pessoas passaram os olhos nesses poemas, agradeço a todas e peço perdão pelo incômodo.

* * *

VALENTINE (1977)

Como uma serpente entre rosas, como uma víbora
entre figueiras do diabo, me enrosco até
e para você. O nome do castelo é você
EL Rey. É uma parada para caminhoneiros
onde se oferece o melhor café e hambúrguer de Utah.
É ainda mais belo e noturno à luz do dia.
Sete camadas: ágata-musgo, coral, aventurina,
Cornalina, lápis lazúli, obsidiana – talvez outras.
Você sabe, isto tem a forma de um quarteto
De cordas. As diferentes partes sobrepondo-se umas às outras,
Provocando umas às outras, atravessando-se umas às outras
para então, recuarem habilmente ao final, deixando – o que?
Um novo tipo de vazio, talvez banhado em frescor,
talvez não. Talvez somente um novo de tipo de vazio.

Você é esperto mas o tempo de hoje surpreende e zomba de você. Você sai em pedaços. Sempre te perseguiu a consciência de que eu estou ali incapaz de retornar, incapaz de te confrontar com sua alteridade. Esta é a outra das minhas casas, a de Hampstead, a de tijolos no meio do quarteirão que você nunca viu embora tenha passado por aquela rua inúmeras vezes, às vezes na primavera com uma fina garoa lhe desviando o olhar, às vezes sob o peso do verão onde a grandiosidade da ideia das árvores inunda suas ideias sobre tudo, assim você nunca viu minha casa. Era perto de onde Arthur Rackam viveu. Eu mal posso me lembrar o nome da rua – alguma inscrição parcialmente legível em uma urna Vitoriana: E, e depois MEL(E?), talvez uma exortação latina sobre maçãs ou heroísmo, e abaixo no trecho mais apagado um nome como “Rossiter”, mas isso está muito mais embaixo. Escute, eu nunca quis que você não estivesse em minha casa. Mas você jamais poderia pois você era a minha casa.

Nesta seção reflito sobre a dificuldade e surpresa de ser você. Talvez isso nunca se escreva. Certas coisas são simultaneamente muito entediantes e muito excitantes para se escrever sobre. Esta deve ser uma delas. Algum dia, quando estivermos chapados… enquanto isso, escreve para mim. Eu realmente aprecio suas ligações, mas é bom receber postais e cartas de vez em quando – então, continue mandando!

Através do crepúsculo desgrenhado eu escuto coisas como “Agora veja isso, meu jovem” ou “Henry Groggins, seu velho degenerado!” ou “Por uma hora Lester tem encarado as planilhas, sem fazer nenhum progresso.” Eu sei essas coisas são, o que elas são. À noite, há poucas coisas, que deslizam para dar lugar a outras. Vista através de uma moldura oval, uma das paredes da sala de estar. O papel de parede é de um padrão convencional, quiabos fatiados e anis-estrelado, mantidos juntos vulgarmente colados por elos grosseiros de papéis coloridos, entre os quais o roxo predomina, estampado sobre um fundo grisalha com pastoras e cães urinando sobre os hidrantes. Refletir sobre a habilidade virtuosa com a qual o artista pintou as gotas que respingavam do hidrante e se acumulavam sobre a brilhante poça amarelo sol entre o meio-fio é uma sóbria experiência. Apenas a prateleira da lareira é exibida. Em cada extremidade, acomodados sobre pedestais ligeiramente afastados, duas figuras aristocráticas de biscuit, o menino em um delicado tom cereja e a menina em azul centáurea. Suas sombras se unem em uma silhueta grotesca. No centro, um antigo relógio cujos cliques atuam como metrônomo para o som de suas vozes agudas. No momento, as figuras abrem e fecham suas bocas, no ritmo de uma conversa ordinária.

Pensei que
remaria até você esta tarde,
Minha Irina! Sempre redigindo seus amados artigos,
Estou vendo. Topei com um deles há pouco numa das
revistas mais progressistas
Brilhantemente escrito, foi isso que me pareceu, mas não são suas ideias
um pouco
radicais para as discussões mais recentes? Claro, há muita
verdade
no que você diz, mas você não sente que às vezes é oferecido ao público
mais verdades
do que ele pode tolerar? Não estou dizendo que você deva…
bem, “fabular”,
Talvez, assim, eh, tempere o vento sobre as ovelhas tosquiadas
Um pouco. Hein? O que você me diz, meu velho?
Ou você está tão apaixonado por suas ideias “radicais” que qualquer
outra coisa
lhe parecerá um velho chapéu, incluindo minha conversa, sem dúvida?
Neste
caso eu deveria partir. Meu Deus, tenho um compromisso para às 4h30
e já passam das cinco. O que você fez com meu chapéu?

Essas coisas eu escrevo para você e somente para você.
Por favor, não as julgue severamente. tempere o vento,
como ele ia dizendo. trate-as como recém nascidos
que venham a crescer e se tornem crianças, talvez – quem sabe –
adultos algum dia, mas agora elas existem apenas na cegueira
de seu amor por mim e são provas dele.
Você não pode pensar nelas por muito tempo
sem querer derrubá-las. Sua casa é um castelo de cartas,
O jeito antiquado de jogar cartas, erguendo torres
até onde olho não possa mais ver, até às nuvens, e também é construída
sobre areia movediça, sua base submerge a perder de vista. Eu sou
o habitável.
minhas costas são portas para você, agora as abra, agora as feche
e seus beijos são como sonhos, ou um elixir,
ou radium, ou flores de algum tipo.
Lembre-se sobre o que lhe disse.

 

Valentine (1977)

Like a serpent among roses, like an asp
Among withered thornapples I coil to
And at you. The name of the castle is you,
El Rey. It is an all-night truck-stop
Offering the best coffee and hamburgers in Utah.
It is most beautiful and nocturnal by daylight.
Seven layers: moss-agate, coral, aventurine,
Carnelian, Swiss lapis, obsidian—maybe others.
You know that it has the form of a string
Quartet. The different parts are always meddling with each other,
Pestering each other, getting in each other’s way
So as to withdraw skillfully at the end, leaving—what?
A new kind of emptiness, maybe bathed in freshness,
Maybe not. Maybe just a new kind of emptiness.

You are smart but the weather of this day startles and japes at you. You come out of it in pieces. Always pursuing you is the knowledge that I am there unable to turn around, unable to confront you with your otherness. This is another one of my houses, the one in Hampstead, the brick one in the middle of the block that you never saw though you passed along that street many times, sometimes in spring with a light drizzle blowing that made you avert your gaze, sometimes at the height of summer where the grandeur of the ideas of the trees swamped your ideas about everything, so you never saw my house. It was near where Arthur Rackham lived. I can’t quite remember the name of the street—some partly legible inscription on a Victorian urn: E and then MEL(E?), perhaps a Latin exhortation to apples or heroism, and down in the dim part a name like “Rossiter,” but that is too far down. Listen, I never meant for you not to be in my house. But you couldn’t because you were it.

In this part I reflect on the difficulty and surprise of being you. It may never get written. Some things are simultaneously too boring and too exciting to write about. This has to be one of Them. Some day, when we’re stoned…Meanwhile, write to me. I enjoy and appreciate your phone calls, but it’s nice to get cards and letters too—so keep ‘em comin’!

Through bearded twilight I hear things like “Now see here, young man!” or “Henry Groggins, you old reprobate!” or “For an hour Lester has been staring at budget figures, making no progress.” I know these things are, that they are. At night there are a few things, and they slide along to make room for others. Seen through an oval frame, one of the walls of a parlor. The wallpaper is a conventionalized pattern, the sliced okra and star-anise one, held together with crudely gummed links of different colored paper, among which purple predominates, stamped over a flocked background of grisaille shepherdesses and dogs urinating against fire hydrants. To reflect on the consummate skill with which the artist has rendered the drops as they bounce off the hydrant and collect in a gleaming sun-yellow pool below the curb is a sobering experience. Only the shelf of the mantelpiece shows. At each end, seated on pedestals turned slightly away from one another, two aristocratic bisque figures, a boy in delicate cerise and a girl in cornflower blue. Their shadows join in a grotesque silhouette. In the center, an ancient clock whose tick acts as the metronome for the sound of their high voices. Presently the mouths of the figures open and shut, after the mode of ordinary conversation.

Thought I’d
Row across to you this afternoon,
My Irina! Always writing your beloved articles,
I see. Happened on one recently in one of the more
progressive journals.
Brilliantly written, or so it seemed, but isn’t your thought a
bit too
Advanced by present-day standards? Of course, there was
much truth
In what you said, but don’t you feel the public sometimes has
more truth
Than it can cope with? I don’t mean that you should…
well, “fib,””
But perhaps, well, heh heh, temper the wind to the shorn
lamb
A bit. Eh? How about it, old boy?
Or are you so in love with your “advanced” thinking that
everything else
Seems old hat to you, including my conversation no doubt?
In that
Case I ought to be getting on. Goodness, I’ve a four-thirty
appointment and it’s
Already five after. What have you done with my hat?

These things I write for you and you only.
Do not judge them too harshly. Temper the wind,
As he was saying. They are infant things
That may grow up to be children, perhaps—who knows?—
Even adults some day, but now they exist only in the blindness
Of your love for me and are the proof of it.
You can’t think about them too long
Without knocking them over. Your castle is a house of cards,
The old-fashioned kind of playing cards, towering farther
Than the eye can see into the clouds, and it is also built on
Shifting sands, its base slurps out of sight too. I am the
inhabitable one.
But my back is as a door to you, now open, now shut,
And your kisses are as dreams, or an elixir
Of radium, or flowers of some kind.
Remember about what I told you.

 

ashbery homens pelados

Comoção dos Pássaros (2016)
Nós estamos nos movendo sem hesitação pelo século XVII
o momento tardio é ok, muito mais moderno
que seu início. Agora temos a Comédia da Restauração.
Webster e Shakespeare e Corneille são ok
para o seu tempo mas não modernos o suficiente,
embora uma melhora diante do século XVI
de Henrique VIII, Lasso e Petrus Christus, que, paradoxalmente,
pareciam mais modernos que seus sucessores imediatos,
Tyndale, Moroni, e Luca Marenzio entre eles.
Muitas vezes é mais uma questão de parecer do que ser moderno.
Parecer é quase tão bom quanto ser, às vezes,
e ocasionalmente tão bom quanto. Ou se é melhor
esta é uma questão deixada para os filósofos
e outros de sua classe, que sabem coisas
de um modo que outros não, apesar das coisas
serem frequentemente quase as mesmas que sabemos.
Sabemos, por instância, como Carissimi influenciou Charpentier,
as proposições medidas com um loop ao final delas
o que traz as coisas de volta ao início, só um pouco
mais altas. O loop é Italiano,
importado da corte de França e logo desprezado,
e então aceito sem o reconhecimento de seu lugar
de origem, como os Franceses costumam fazer.
Talvez alguém o reconheça
em seu novo disfarce – o que pode ser adiado
até outro século, quando historiadores
clamarão que tudo aconteceu normalmente, como resultado da história.
(O barroco tem um jeito de tombar sobre nós
quando pensávamos que tinha sido guardado em segurança.
O clássico o ignora, ou não se importa muito.
Ele tem outras coisas em mente, de menor importância,
acontece) Ainda, estamos certos de crescer com isso,
ansiando impacientemente pelo modernismo, quando
tudo se resolverá melhor, de algum modo.
Até lá é melhor satisfazer nossos gostos
da maneira que soe certo para eles: este sapato,
esta correia, parecerão úteis um dia
quando a cuidadosa presença do modernismo estiver instalada
por todos os lados, como os restos de um projeto de construção.
É bom ser moderno se você pode sustentá-lo.
É como ser deixado na chuva, e levado
a entender que você sempre foi assim: moderno,
úmido, abandonado, porém com essa intuição especial
que o permite compreender que você não está destinado a ser
outra pessoa, por quem os criadores
do modernismo suportariam uma inspeção
enquanto murcham e desbotam sob o fulgor de hoje

 

Commotion of the birds

We’re moving right along through the seventeenth century.
The latter part is fine, much more modern
than the earlier part. Now we have Restoration Comedy.
Webster and Shakespeare and Corneille were fine
for their time but not modern enough,
though an improvement over the sixteenth century
of Henry VIII, Lassaus and Petrus Christus, who, paradoxically,
seem more modern than their immediate successors,
Tyndale, Moroni, and Luca Marenzio among them.
Often it’s a question of seeming rather than being modern.
Seeming is almost as good as being, sometimes,
and occasionally just as good. Whether it can ever be better
is a question best left to philosophers
and others of their ilk, who know things
in a way others cannot, even though the things
are often almost the same as the things we know.
We know, for instance, how Carissimi influenced Charpentier,
measured propositions with a loop at the end of them
that bring things back to the beginning, only a little
higher up. The loop is Italian,
imported to the court of France and first despised,
then accepted without any acknowledgment of where
it came from, as the French are wont to do.
It may be that some recognize it
in its new guise – that can be put off
till another century, when historians
will claim it all happened normally, as result of history.
(The baroque has a way of tumbling out at us
when we thought it had been safely stowed away.
The classical ignores it, or doesn’t mind too much.
It has other things on its mind, of lesser import,
it turns out.) Still, we are right to grow with it,
looking forward impatiently to modernism, when
everything will work out for better, somehow.
Until then it’s better to indulge our tastes
in whatever feels right for them: this show,
that strap, will come to seem useful one day
when modernism’s thoughtful presence is installed
all around, like the remnants of a construction project.
It’s good to be modern if you can stand it.
It’s like being left out in the rain, and coming
to understand that you were always this way: modern,
wet, abandoned, though with that special intuition
that makes you realize you weren’t meant to be
somebody else, for whom the makers
of modernism will stand inspection
even as they wither and fade today’s glare.

§

júlia manacorda, 1991, Niterói, traduz e pesquisa John Ashbery. seu primeiro livro, No ano de Blade Runner: a crise constitucional foi publicado pela Garupa em 2019.