Hans Arp (1886 – 1966), por Natan Schäfer

Hans Arp (1886 – 1966) nasceu em Strasbourg, na Alsacia. Autor de uma obra múltipla de verdade, Arp e suas realizações não conhecem fronteiras. Justamente por isso, poderíamos paradoxalmente afirmar que o lugar por excelência ocupado por Arp, equilibrista à margem da margem em permanente posição de clandestinidade, é exatamente a fronteira, ou melhor ainda, afronteira.

Textualmente, expressou-se em francês e em alemão, ambas suas línguas-mãe, que em Arp conviveram numa dialética harmonia, apesar das grandes guerras e suas bandeiras bestas. Porém, tanto suas esculturas quanto collages, pinturas e escritos constituem e partem de uma só visão de mundo, marcada por uma constante oscilação entre o Grande Dia e a Grande Noite, um senso de humor singular — que lhe valeu uma posição de destaque na legendária Antologia do humor negro, organizada por André Breton — e uma relação intensa e franca com seu sonho, sua fantasia e seus desejos, constituintes elementares do mais-que-real arpádico, ou seja, de sua vida.

Trago aqui dois breves poemas pinçados da extensa obra de Arp que me parecem bastante representativos, além de possibilitarem diálogos e aberturas importantes com relação ao que cada um de nós vive hoje, agora. Os textos foram tirados deARP, Hans Jean. ich bin in einer wolke geboren/ je suis né dans un nuage. Hrsg. von Christian Luckscheiter. Mitteldeutscher Verlag: Karlsruhe, 2018.

Agradeço muito ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pela publicação.

Boaventura!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

Veias negras

morre a quimera das rosas
no meu peito de névoa
na beira do leito espreito
um astro velho e rachado

aranhas cinzas vão em fila
às veias negras do horizonte
vão como que para o enterro de uma fada
o vazio suspira

meus pobres sonhos perderam as asas
meus pobres sonhos perderam os fogos
de mãos dadas em volta
do caixão do meu coração
sonhando com cinzas migalhas

o dia ressurge
mas não tenho mais forças
caindo o céu me cobre
abro os olhos para sempre

Veines noires
dans mon cœur de brouillard
meurt la chimère des roses
un astre s’assied au bord de mon lit
il est vieux et lézardé

des araignées grises s’en vont à la file
vers l’horizon aux veines noires
elles s’en vont comme pour l’enterrement d’une fée
le vide soupire

mes pauvres rêves ont perdu leurs ailes
mes pauvres rêves ont perdu leurs flammes
ils se serrent les coudes
sur le cercueil de mon cœur
et rêvent de miettes grises

le jour réapparaît
mais je n’ai plus de forces
le ciel descend et me couvre
j’ouvre pour toujours les yeux

§

Sophie

os corações são estrelas
que florescem nas pessoas.
Toda flor é céu.
Todo céu é flor.
Toda flor fosforesce.
Todo céu floresce.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim.
Para me encorajar,
para me confundir,
para esquecer da dor maior,
do desamparo em que vivemos,
digo bobas frasinhas.

Os mares são flores.
As nuvens são flores.
As estrelas são flores,
que florescem no céu.
A lua é uma flor.
A lua também é uma lágrima grande.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim,
sempre só para mim.
Digo corriqueiras, mínimas frasinhas.
Digo como os mínimos sinos,
que se repetem e se repetem.

Sophie está no céu.
Sophie é uma estrela.
Sophie é uma flor.

Todas flores florescem,
florescem para ti.
Todos corações fosforescem,
fosforescem para ti.

Agora você se foi.
E eu aqui, que fico, que faço.
Tenho só um desejo.
Quero ter dar um abraço.

Como a vida passa rápido
na clara escuridão divina.
Mal se disse hoje,
já se foi amanhã.
E assim vão os anos
com jogos, sonhos e bordos.
E assim vai o tempo
onde as flores flutuam.

Desde que você morreu,
agradeço cada dia que se vai.
Cada dia que se foi
me aproxima de ti.

Você desenhava o contorno da vida iluminada.
As marés azuis perfumadas
correndo dos tapetes floridos do verão,
o marulho do molho de nuvens,
iluminava suas linhas sobre a infamiliar base.
Você cercava as estrelas floridas com seus feixes de estrela.
Os divertidos canteiros tagarelas fazem um minuto de silêncio,
quando os seus olhos ali brilham.
Você detestava o brilho oco do maravilhoso teatral
destroçado, informe,
os ajoelhares presunçosos desertos.

Sophie

Die Herzen sind Sterne,
die im Menschen blühen.
Alle Blumen sind Himmel.
Alle Himmel sind Blumen.
Alle Blumen glühen.
Alle Himmel blühen.

Ich spreche kleine, alltägliche Sätze
leise für mich hin.
Um mir Mut zu machen,
um mich zu verwirren,
um das große Leid, die Hilflosigkeit,
in der wir leben, zu vergessen,
spreche ich kleine, einfältige Sätze.

Die Meere sind Blumen.
Die Wolken sind Blumen.
Die Sterne sind Blumen,
die im Himmel blühen.
der Mond ist eine Blume.
Der Mond ist aber auch eine große Träne.

Ich spreche kleine, einfältige Sätze
leise für mich hin,
immerfort für mich hin.
Ich spreche kleine, alltägliche, geringe Sätze.
Ich spreche wie die geringen Glocken,
die sich wiederholen und wiederholen.

Sophie ist ein Himmel.
Sophie ist ein Stern.
Sophie ist eine Blume.

Alle Blumen blühen,
blühen für dich.
Alle Herzen glühen,
glühen für dich.

Nun bist du fortgegangen.
Was soll ich hier gehen und stehen.
Ich habe nur ein Verlangen.
Ich will dich wiedersehen.

Wie schnell vergeht ein Leben
in Gottes lichtem Dunkel.
Kaum ist heute gesagt,
ist morgen schon vergangen.
Und so vergehen die Jahre
mit Spielen, Träumen, Säumen.

Seitdem du gestorben bist,
danke ich jedem vergehenden Tag.
Jeder vergangene Tag
bringt mich dir näher.

Du zeichnetest die Umrisse des lichten Lebens.
Die blauen duftenden Fluten,
die aus den Blumenteppichen des Sommers strömen,
das Rauschen der Wolkergarben
verklärten deine Linien über dem unheimlichen Grund.
Die Blumensterne umgabst du mit Sternenstrahlen.
Die spaßhaft plaudernden Blumenbeete schwiegen andächtig,
wenn deine Augen über sie Leuchteten.
Du verabscheutest das Zertrümmerte, das Formlose,
das leer Glänzende der Theaterwunder,
die Kniefälle anmaßender Wüsten.


Basel 1943-1945