“À tarde”, de Aureliano Lessa, por Raimundo Carvalho

Aureliano Lessa – Wikipédia, a enciclopédia livre

À tarde
Aureliano Lessa (1828-1861)

I

Lá descambou o sol… Vai descorando
Manso e manso o cetim vivo-cerúleo
E as vermelhas folhagens que recamam
O côncavo do céu. Transluz no ocaso
Por débil prisma cambiante facho
De semimortas cores, que se perdem
No azul ferrete do noturno manto.
Nevadas franjas flutuando em flocos
Erram nas abas do dossel da tarde,
Como da seda azul que a moça traja,
Cândida renda guarnecendo as orlas.
Galerna a viração farfalha e brinca
Na coma da palmeira; o mar soluça
Esponjando na praia; e a selva freme
Exalando inefável harmonia,
Que os gênios do ermo tímidos murmuram.
Queixosa a juriti na balsa arrula;
Com ela geme o sabiá saudoso,
Assim modula suspirosa flauta,
Assim chama a viúva pelo esposo
Qu’inda tão jovem lhe caiu dos braços.

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde,
Que mágico pintor bordou teu manto
Coas duvidosas sombras do mistério?…
Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar coa nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases…
Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d’anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d’ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam…
Não sei! Há dentro d’alma tantas cousas
Que jamais proferiram lábios d’homens…
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora,
Té de mim próprio sinto um vago olvido,
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas,
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: – todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens – té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimando ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: – sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo,
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d’alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe supram.
Talvez agora na floresta anosa,
Proscrito errante, o índio americano
Para e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amor à virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo.

IV

As inflamadas nuvens já se abatem
Do incêndio ocidental. – Reina o silêncio
Temeroso e fugaz. – A natureza
Entre o sono e a vigília está suspensa.
Oh! quem não sente sussurrar-lhe n’alma
Um desejo inefável como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amável, entre a dor e o riso,
Magicamente embala-se a existência;
Em cada coração qu’inda palpita
sonora cai da lira do Universo
Uma nota de amor e de saudade.
Extático , no cimo da montanha,
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o bálsamo de amor, que a tarde mana,
No coração do bárbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão lânguido,
Tão misterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amor em tudo.
Quiçá longe de urdir sangrentas tramas
De inóspito rochedo em negra cova
Responde agora o anjo do infortúnio,
Inimigo dos homens: Tarde ou nunca
De um dormir letárgico desperte!
Vela, gênio do bem, vela em seu sono!

LESSA, Aureliano. Poesias. Edição, apresentação e notas por José Américo Miranda. Belo Horizonte, FALE, 2000. O livro está disponível aqui.

* * *

Algumas considerações a respeito do poema “À tarde”, de Aureliano Lessa

Qualquer análise deste poema deveria começar por reconhecer o seu pertencimento a uma linhagem de poemas vesperais, assim denominados por representarem o eu-lírico meditando à tarde, tendo por objeto o próprio fenômeno natural e suas relações com a existência. Dentre esses poemas, destaco o hino “À tarde”, do pré-romântico Odorico Mendes (1799-1864), o hino “A tarde”, de Gonçalves Dias (1823-1864), o “Hino à tarde”, de Bernardo Guimarães (1825-1884) e “Louvação da tarde”, do modernista Mário de Andrade (1893-1945). Além da aludida temática, esses poemas têm em comum o fato de serem de maior fôlego. São poemas relativamente longos para o padrão lírico em geral, entre 94 a 165 versos, todos tendo por base rítmica, exclusiva ou predominante, o decassílabo branco. O que diferencia o poema de Lessa dos demais, sob o ponto de visto do desenvolvimento do tema, é que, enquanto naqueles o sujeito da contemplação se sobrepõe ao objeto contemplado, nele a presença do sujeito é minimamente anotada, na negativa ou em formas oblíquas, ocorrendo uma espécie de fusão do eu na natureza ( ver versos 33-40). Ao mesmo tempo esse eu-lírico, esquecido de si, em sua imaginação, acolhe o peregrino errante, o pobre escravo, os sôfregos amantes e o índio proscrito. Se observarmos bem a figura de acumulação que vai se formando a partir do verso 50, vemos que ela se conclui com a reiteração dos elementos enumerados, de tal forma que ocorre, no verso 69, uma perfeita identificação entre a natureza, o eu e o outro, se entendermos que a expressão “triste Bardo” condensa uma referência ao “índio americano” citado no verso 59 e uma autorreferência. Há que se perguntar por que, diante de um espetáculo de tal magnitude e beleza como um fim de tarde, a alma do poeta se tinge com as cores da melancolia para, ao mesmo tempo, se solidarizar, sem nenhum proselitismo ou queixa pessoal, com os infelizes e os desterrados: o estrangeiro, o escravo, a mulher (a viúva, a donzela) e o índio. A resposta é todo o poema, urdido das mais sutis ressonâncias, aliterações e rimas toantes adicionando reflexos prismáticos aos decassílabos brancos, numa perfeita correspondência entre gradações sonora e imagética.

Bem, penso que já passou da hora de lermos a obra dos nossos poetas românticos não como documento de época ou exemplo de uma dada poética, mas como poemas simplesmente, nos quais, nós, leitores, possamos projetar o nosso imaginário e a nossa inteligência, sem nos atermos aos juízos nem sempre acurados dos historiadores da literatura.

Raimundo Carvalho