Júlia Batista

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Júlia Batista (São Paulo, 1996) reside em São Paulo – SP, mas morou grande parte de sua vida em Embu das Artes – região metropolitana da capital paulista que continua sendo seu refúgio com ar puro e afeto familiar. Cursa graduação em Letras-Português/Italiano na Universidade de São Paulo (USP). Ainda criança, encantou-se pelas infinitas possibilidades de expressar-se, oferecidas pelo português brasileiro. Tal encantamento fez surgir em sua vida um constante movimento: viver-sentir-escrever. O resultado disso se dá despretensiosamente com uns versos aqui outros ali. Até pouco tempo, não achava que podia publicar nada. Atualmente, gostaria muito não só de ser lida, mas sobretudo de compartilhar escrevivências com outros e outras poetas. O primeiro passo aconteceu no início de 2020, quando ingressou na turma negra do grupo Livrar-se, coordenado pela escritora Lubi Prates.

*

PULSO

passo em pulso
no susto ou escuro
às vezes, impulso
palavra como soluço

grave é o som do
baixo-coração
pulsa em mim
palavras ritmadas

rimas que remam longe
quando saem de mim
não são mais minhas
rumam um caminho infindo

mero instrumento que soul
labor até o último suspiro

quando escrevo,
pulso.
enquanto pulso,
vivo.

*

Sobre pingos e gotas

o onda se forma
do baixo coração

a tempesta desmancha
de cima lembranças

o choque
de dois pólos
na garganta
é sem som
sem sim
palavra é só
e nada.

não adianta
se saudade
agiganta

lava os meus olhos
e teimosa desemboca
na ponta da língua
e pinga pinga pinga…

o continuum do fim
é a conta-gota
ainda degusto
teu gosto.

[sem título]

anseio a despretensiosidade da natureza.
queria ser, independente de sussurros.
como um pôr do sol que se despede sempre a sua maneira
tendo aplausos ou não.
me preocupar apenas em chorar, como a chuva –
que ora limpa ora inunda.
me juntar a outras estrelas e conseguir ser brilhosa e cheia
ou minguante e retraída, como a lua.
alçar livres voos silenciosos, como uma coruja.
e, toda noite, no meio do medo do escuro,
cantarolar forte como uma cigarra,
despreocupada em causar repentinos sustos.

queria fazer da minha existência milhares
de instantes astutos indomáveis
por quaisquer alheios.
e do meu sentir, extrair
o mais puro e bruto do íntimo soul.

como uma marionete,
muitas cordas ainda limitam movimentos meus,
impondo-me um caminho e um fim.
eis meu fado e desafio,
a cada passo distinguir
o que são balanços de cordas
do que são pulsos de mim.

*

Morada

não sei com quantos paus se faz uma canoa
mas os que penetraram esta vulva
eram todos ocos,
frágeis demais – mais do mesmo
não construíram nada.

eu já perdi as contas.
não lembro mais dos nomes – mais do mesmo,
dos rostos dos olhares dos lábios,
quando ou quantos vieram…
só sei que a estadia é curta
e ninguém fica.

mal olham a decoração,
pouco se atentam ao jeito peculiar de
organizar os livros na estante,
se olhar no espelho a simular as caras e bocas que o mundo vê,
pegar um copo de bebida sempre com o dedo mindinho levantado,
anotar tudo em letra cursiva alternando a cor da tinta a cada parágrafo,
colecionar discos quadros marca-páginas ingressos de cinema
encerrar quase toda frase com ‘enfim’ por haver uma dificuldade tremenda em delimitar o sentido das coisas

qualquer detalhe que remeta a alguma coisa além do ato,
não interessa.
verdadeira casa da mãe joana – bendita mãe e bendita joana.
é pau e porra porca.
entram desabotoam trepam – quiçá, dormem.
mas ligeiramente somem.
desaparecem sutilmente
como as folhas de outono que o vento leva.

são bagunceiros demais
desatentos demais
brutos demais
chegam e desestabilizam
a ordem de uma morada já frágil,
mas arduamente construída.
e ao fim de cada estadia,
pacientemente tenho que organizar tudo de novo.

sozinha eu tiro a poeira do tapete
pisado pelos sapatos enlameados dos visitantes levianos,
pego os cacos de vidros dos copos quebrados com apenas algumas palavras,
troco o lençol da cama sujo de um gozo egoísta,
e fecho temporariamente a porta dessa moradia
para que a faxina seja feita em paz.

mas sempre deixo as janelas abertas
a permitir que o vento entre e dance,
embalando para longe a poeira e o cheiro de suor mulambento,
com o sol a iluminar fortemente as minuciosidades dessa morada
fazendo com que eu as enxergue bem e me recorde de suas belezas – na bagunça, às vezes eu esqueço.

quando alcanço um mínimo arranjo,
mantenho um cotidiano cuidadoso.
caminho tinindo, mansinho, na ponta dos pés,
sem tirar nada do lugar.

evito a fadiga
e ignoro alguns toques e chamados.
prezando pela ordem,
vou abrindo a porta cada vez com menos frequência.

porém, permaneço com as janelas abertas
a estudar previamente aqueles que chegam
e tentar receber as visitas certas.

mantenho as janelas abertas,
a contemplar outras moradas,
e um pouco para não sufocar.
a lua cheia, o pôr do sol cortado pelos fios elétricos da vila, a chuva
por vezes, são boas companhias.

por necessidade,
permaneço com as janelas abertas.

*

Águas de Oxum

lua crescente e caranguejada.
Águas de março abrem o outono e as afiadas garras do caranguejo
são obrigadas a deixar ir o que apenas-mente pesa
nem que seja rasgando. Os caminhos
ainda estão difíceis de se abrir,
pois não encontrei as folhas de pinhão roxo.
Não é que não se abriram,
é que a mata pinica muito meu rosto.
Já fui por percursos dantes traçados,
já segui os vãos deixados
na mata por outras pegadas…
Mas não gostei das chegadas.
Procuro por novas cachoeiras, outras praias.
Entendi que devo pegar a enxada
e traçar uma rota particular.
Permaneço ainda muito prudente nos passos,
mas já derrubei alguns matos.
Manejo melhor a enxada.
Sinto que marcho,
porque não me curvo mais a quaisquer ventos teus.
Quando os sinto, apenas movo os meus olhos.
Se não estais na minha visão periférica, não mais te vejo.
Por vezes sou teimosa, sei que logo me porão antolhos,
para completamente te ignorar.
tais medidas foram precisas, já que perdi o controle da fogueira.
Outrora me aquecia, hoje só me queima.
Agora só estou cansada.
Meu corpo transpira junto ao vapor do incêndio previamente contido.
Se tenho sede, lambo algumas gotas salgadas de mim
chuvas do meu corpo.
agradeço, por fim
se não fossem as águas e o amor de Oxum,
tudo teria sido apenas cinzas.

*