Beatriz Ribeiro

100381256_626999711499742_3027467382645449522_n

Beatriz Ribeiro é poeta negra, periférica e mãe solo. Escreve poemas desde os 12 anos, encontrou nos livros e na poesia o seu refúgio, o seu “país das maravilhas” pessoal onde tudo era possível, uma cura aos abusos sexuais que sofria, o bullying na escola, o racismo,  machismo, entre os outros obstáculos. Seu sonho  é inspirar outras mulheres que como ela são subjugadas e passam por diversas lutas todos os dias. As poemas abaixo compõe seu livro O mistério por detrás das Asas, ainda inédito. 

*

Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
– Stela do Patrocínio

Análise do pombo

Eu sou o pombo
O pombo voando sem destino certo
Voando pela cidade vendo a vida das pessoas acontecerem
Eu sou o pombo agradecido
Pelas migalhas que me destes,
Porque na minha cabeça de pombo é o que mereço.
Eu sou o pombo rejeitado, cuja presença incomoda.
Pois sou sujo tal como um rato
Olham-me e me veem asquerosamente feio,
Riem de mim, podem rir.
Nada tenho eu contra a tua risada debochada
Teve um tempo que passei longas horas imaginando
Como deveria ser uma águia com seus olhos e pelagens admiradas.
Sou o pombo solitário.
Se eu morro apenas passam por cima de meu cadáver
Sem dó, nenhuma comoção.
O pombo não merece compaixão, nem amor alheio.
Eu sou o pombo subjugado e entristecido,
Mas quando ninguém repara eu fecho os olhos e vou voar,
Para longe da tua risada ecoante, para longe do seu desprezo.
E encontro nas nuvens, do sonho e do pensamento,
O consolo para essa vida que é tal como
Uma ferida pulsante que não para de doer.

§

Os Urubus

Os urubus são o renascimento,
Os urubus comem o resto da vida
Eles separam o fútil corpo
Do livre e esplendido espirito
No entanto,
Não se podem contemplar os Urubus.

A magia deles é segredo!
Os servos das divindades,
Que como a abelha faz com a flor
Recolhe nossas almas
Para o paraíso.

§

A galinha

Eu nasci para servir
Em um sistema que me sacrifica para fins religiosos
Arrancam minhas penas para vestimentas
Arrancam minha placenta e fritam meus filhos em óleo quente
Enchem-me de hormônios para que e fique maior
Na hora da morte quebram meu frágil pescoço
Usam-me até não ter mais como usar
Fui castigada desde sempre, pois tenho asas,
Mas não posso usá-las para fugir disso tudo
A morte para mim é um alívio
Porque só assim serei livre e poderei voar…

§

Phoenix

Acabei de sair dos meus ninhos pretos
Estico minhas asas gentilmente abrindo
Isso deveria ser bom?
Mas você não sabe como é difícil para mim acordar todos os dias
Manhãs sem fim, meu destino é ser infinito
Até depois do fim
Então eu vivo, não só esta noite
Mas sempre como se fosse um jovem para sempre
Ter o ingênuo primeiro amor,
O deslumbramento de uma primeira festa,
O coração disparado e mentiroso
Perguntavam-me – E tu já beijaste uma garota?
Afligia-me o suor esfriava e eu dizia
Orgulhoso e pomposo – Mas é claro que sim!
Toda vez que perco um amor eu caio de um penhasco!
E fico neste ciclo, até que meu amor pare de partir

*