Nádia Camuça

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Nádia Camuça é atriz e estudante de Licenciatura em Teatro no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará/IFCE, natural de Fortaleza. Atua no cenário artístico da cidade desde 2013, tendo participado de curtas-metragens e espetáculos teatrais. Participa da primeira Antologia Erótica de Poetas Cearense: O Olho de Lilith, publicada pelo Selo Ferina. Mantém os blogs O Lado N – poemas autorais e as vírgulas.

*

um CRIME

Seria fácil escrever um livro de poemas se eu quisesse
é só colocar tudo para fora e as palavras em versos
apertando enter no teclado
pronto
aqui está
o começo de um livro de poemas
mas antes do título vem a vontade
esse poema é a minha vontade
fique
toque
lamba
risque
risque meu livro
corte em pedacinhos

*

XXXI.

Agora eu não quero mais entregar tudo que sou o que eu tenho é para ser falado, gritado, à beira-mar vocês não podem me escutar, talvez o mar talvez eu vire uma sereia encantada intocada
Sereia sendo não quero cantar todo o meu canto assim ao mar em vão na proa de um barco naufragado sem cuidado
Sereia sendo não tem mais sentido não quero mais jogar meu encanto em redes frágeis você não vai suportar me desfaço desfaleço em toneladas de peixinhos loucos para voltar ao mar aberto e você não tem força para segurar
Debato-me enlouqueço e sei que o mundo não permite que eu exploda quando bem entender o mundo não suporta explosões existenciais
O ser parece que de tempos em tempos se permitido atravessa o corpo em fogo de artifício no céu que brilha mas ninguém o toca porque queima
Eu não quero mais apresentar esse espetáculo a céu aberto que depois você volta para seu confortável lar e faz uma lista de pedidos que não me inclui
E eu fico por horas explodindo e brilhando por dentro mas sua ciência não entende o fenômeno e eu caio estrela só para seu pedido estúpido
Meu coração não bombeia só meu sangue meu sangue não contém só glóbulos brancos vermelhos plasma plaquetas hemácias atravessando minha pele não é só pele que habito não são só ossos que me sustentam
Eu me expando e nesses três meses não sei mais quais os limites que me emparedam nasci de novo ainda com resquícios de uma educação sentimental insólita quebradiça quase despedaçada
Nasci de novo e quero nascer mais todo o dia Hoje quem nasce? O que nasce? O que vem que não conheço?
Me expando e há tantas partes de mim para tatear no escuro até talvez encontrar a maçã
Me expando e não me espanto talvez se soubesse agora o que eu quem eu sou…

*

Quando eu puder gritar,

irei expelir do meu corpo todos os objetos cortantes escondidos debaixo da minha pele.
Um grito oceânico está prestes a sair
Um mamífero marinho gigante procurando sintonizar com o mundo
Não é sua frequencia
sereiaseesea
Um grito desértico de andarilhAAAAAA
caminho traçado por cacos de vidro
de todos os desastres amorosos espatifados no chão
Cuidado: Frágil
demais para você carregar
Pesado demais para eu suportar
Quando eu tentei passar por aquele caminho estreito
Eu escondi os cacos debaixo do tapete da carne morta dos meus pés
Eu escondi os vidros entre os dedos e não pude mais mexer
Das minhas costelas brotam os espinhos e hoje eu não consegui respirar muito bem
Hoje eu não consegui
Respire
Não espere
Não desperte
Aquela fera aquática que você não vai conseguir olhar nos olhos quando ela for te abocanhar.

*

um crime passional

algum desejo impuro dentro de mim tem vontade de rasgar as páginas que leio, só porque gosto demais delas
é isso que ensinaram sobre o que era o amor
não é

*

a boca

eu escuto as pisadas ao longe
eu escuto talvez em algum lugar da minha mente
talvez quando abro este livro vermelho
talvez quando me encosto no teu seio
pode ser o som dos nossos corações todos juntos
depois de correr por becos ou ruas muito bem iluminadas as treze horas da tarde
morrendo de medo
morrendo de medo
morrendo de medo
muitas vezes morrendo
muitas vezes com medo
depois de perfurar miragens
tirar do poço seco uma gota de água e beber como se fosse uma tempestade
para correr novamente
eu escuto suas pisadas são tambores em meu corpo pequeno eu abarco os seus e todas juntas formamos esse imenso corpo para abocanhar o mundo que antes tentou nos engolir
num mundo que foi edificado à custa do cheiro dos corpos das mulheres estupradas e queimadas
eu ainda estou viva com meu corpo erótico
elétrico
falar de poesia erótica escrita por mulheres
poesia que é política
num mundo que foi erguido à custa da eliminação em massa dos corpos das mulheres, dos negros e dos povos originários desta terra
num mundo que só sobrevive à custa de nossas bucetas trancadas em gaiolas como galinhas poedeiras feitas só para parir
meu gozo é anticapitalista
o gozo que não é lucro para empresas
o gozo que não está à venda
o gozo do corpo que aborta
falar de poesia erótica quando somos mãe também
e como vacas leiteiras tiram nossos filhos
para o Estado matar
para o Estado torturar
para o Estado explorar
eu jorro choro escorro
eu quero falar sobre a poesia erótica que não virou cozimento no fogão
não põe o jantar
não lava cueca gozada
e a poesia que também é obrigada a fazer essa dupla jornada
e nunca é paga

quer queimar o capitalismo
eu queimo primeiro
escrevo hoje erótica
quando outras antes de mim foram mortas
este prazer-poema te lembra:
mulher, teu corpo é terra em transe
terremoto carnal
tua buceta viva toca fogo no capital.

*