Sessão Vagalume|Azzurra D’Agostino (1977—), por Prisca Agustoni

Azzurra D’Agostino (1977) nasceu no Appennino Tosco-Emiliano.  Publicou várias coletâneas de poemas, entre as quais D’Aria sottile (Transeuropa, 2011, selez. Prêmio Viareggio); Canti di um luogo abbandonato ( SassiScritti, 2013, Prêmio Carducci 2014); Quando piove ho visto le rane (Prêmio Ciampi Valigie rosse, 2015). Curou junto com Francesca Matteoni o volume antológico Un ponte gettato sul mare. Uma experiência de poesia nos centros psiquiátricos (Perda Sonadora Imprentas, 2016).

Tem poemas, contos e textos críticos publicados em várias revistas e antologias. Escreve para o teatro e trabalha como curadora de eventos culturais.Os poemas aqui publicados foram extraídos da obra Alfabetiere privato. Falloppio, Lietocolle gialla, 2016.

Prisca Agustoni

* * *

Le foglie nuove

Il verde che esce dagli alberi,
la luce che esce, che trabocca,
gli alberi, la luce, le foglie vere
il brillare delle foglie, il muoversi,
le foglie tra i rami, i rami,
un dondolare leggero, un brillare di luce,
di verde, di verde come colore,
come sensazione degli occhi,
il vento che muove, tocca appena
ci sfiora, muove i rami, provate,
provate a guardare un albero
assieme a un bambino che non sa parlare.


As novas folhas

O verde que sai das árvores,
a luz que sai, que transborda,
as árvores, a luz, as folhas verdadeiras
o brilho das folhas, o mover-se,
as folhas entre os galhos, os galhos,
o leve balançar, o brilho de luz,
de verde, de verde como cor,
como sensação dos olhos,
o vento que mexe, roça apenas
nos aflora, move os galhos, tentem,
tentem olhar uma árvore
junto com uma criança que não sabe falar.

§

Estate in città

Io vi guardo, con quella fame
da ragno.
La scriminatura bianca dei capelli stinti
le spalle curve e due occhi da malato grave
da bestia da zoo che dondola e dondolando
Ciondola il capo immenso.
Siamo pochi e non è amore
Nell’aria opaca noi mescolati
Per le strade vuote coi sandali brutti mentre
I cani aspettano accaldati fuori
Dai supermercati che faccia sera.


Verão na cidade
Eu olho para vocês, com aquela fome
de aranha.
A raiz branca do cabelo desbotado
as costas curvadas e dois olhos de doente brabo
de fera no zoológico que balança e balançando
inclina a cabeça imensa.
Somos poucos e não tem amor
no ar fosco nós misturados
pelas ruas vazias com as sandálias feias
enquanto os cães acalorados esperam fora
dos supermercados que venha a noite.

§

Borgo di Chiapporato

Tra i castagni dai fusti neri dentro
Il solco di un’infanzia decisiva
Sta una donna sola con il suo gregge.

Veniamo dopo i crolli delle stalle
Veniamo dopo i morti i vasi vuoti
I solitari vespri che la sera
Disacerbano il gelo della notte.
Veniamo in un tempo seppellito
Nei cuori dei vecchi e dentro le rotte
Di bestie che non sappiamo fiutare.


Borgo de Chiapporato

Entre as castanheiras dos caules pretos
dentro do sulco de uma infância decisiva
está uma mulher sozinha com seu rebanho.

Chegamos depois das ruínas dos estábulos
chegamos depois dos mortos dos vasos vazios
dos solitários fins de tarde
que amainam a geada da noite.
Chegamos num tempo soterrado
nos corações dos velhos e dentro das rotas
de feras que não sabemos farejar.

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Prisca Agustoni nasceu na Suíça italiana, viveu muitos anos em Genebra e desde 2003 vive entre a Suíça e o Brasil, onde leciona literatura italiana e comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora e onde trabalha também como tradutora.  Poeta, escreve e se auto traduz em italiano, francês e português. Colabora com o jornal italiano IL SOLE 24 ore, com resenhas de literatura, e também com alguns festivais literários suíços. Como tradutora recebeu apoio da Pro Helvetia para traduzir em português uma antologia do poeta suíço-italiano Fabio Pusterla (Macondo, 2017) e está com outros projetos de tradução em curso.