Sessão Vagalume| Por Prisca Agustoni

Começamos hoje uma série feita pela poeta, tradutora e professora suíça Prisca Agustoni, que está radicada no Brasil há já bastante tempo; uma figura capaz de produzir poesia de espanto em algumas línguas ao mesmo tempo. Abaixo, segue o texto de apresentação; e em breve começaremos de fato com a “Sessão Vagalume”.

Guilherme Gontijo Flores

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SESSÃO VAGALUME  

Que esses nossos tempos são tempos sombrios não há dúvidas. E não vou me alongar em explicações que apenas ajudam a evocar o estado de sítio e de medo que nos atormenta,  e não somente no Brasil. Por outro lado, existe uma efervescência cultural, uma força em não querer simplesmente se dobrar ao silêncio e ao desalento e essa força me parece existir graças a uma consciência de um coletivo – todos juntos ou cada um dentro da própria realidade – empenhado em testemunhar o cotidiano e o nosso tempo. Em dar voz aos que não têm voz, em inquirir aquilo que ainda não tem explicação. Como diz um dos versos mais emblemáticos de Montale, “não nos peças a palavra que explique o mundo”: de fato, os poetas não pretendem explicar nada, mas em tempos obscuros parecem assumir a tarefa irrenunciável e política de questionar o visível, o invisível, o dizível, o indizível, a própria linguagem, o silêncio.

A Sessão Vagalume pretende ser um espaço de atravessamentos e de acolhida. De vozes que em outras latitudes estão falando, perguntando, inquirindo, criando janelas para ver o mundo ou para encantar a cada dia o gesto da escrita, e deslocando o lugar do luto para o lugar do culto às minúcias, à palavra, ao prazer da reflexão e da partilha do que há de mais belo no humano. Do luto para o rito: postar-se diante de uma folha em branco ou diante de uma tela acesa continua sendo, desde que o humano pisou na terra, talvez uma das formas mais verdadeiras de se revoltar contra a morte.

Pretendo apresentar periodicamente uma voz da poesia europeia contemporânea, com atenção especial para a poesia de línguas italiana e francesa. Aproveitarei a oportunidade para propor também vozes da Suíça romanche, da Suíça alemã e da Alemanha.

Espero que esse diálogo ajude a criar uma comunidade de vagalumes em versos, e que estes possam contrastar com gentileza a brutalidade dos dias atuais.

Prisca Agustoni