Oskar Pastior (1927 – 2006), por Valeska Brinkmann

Foto de Dietmar Bührer 

Oskar Pastior (1927 – 2006) nasceu em Sibiu, na minoria alemã dos saxões da Transilvânia, Romenia. Estudou alemão na Universidade de Bucareste. Foi editor do departamento de língua alemã da Rádio Estatal Romena.

Em 1968, Pastior usou uma visita de estudo em Viena para fugir para o Ocidente. Foi para Munique e depois para Berlim Ocidental, onde viveu como escritor e tradutor de 1969 até sua morte em outubro de 2006.

Pastior foi um expoente da poesia na literatura de língua alemã do século XX, cujas principais  considerações são brincadeiras e trava-línguas. Seu trabalho foi fortemente influenciado pela poesia sonora do dadaísmo, mas também pela arte dos autores do grupo OULIPO. Suas primeiras publicações de poesia na Romênia na década de 1960 causaram alvoroço e lhe renderam dois grandes prêmios literários romenos.

Amigo e inspirador de Herta Müller, sua vivência no campo de concentração soviético serviu como base pra o personagem de Müller no romance Atemschaukel. Ela e Pastior encontravam-se semanalmente e viajaram juntos aos locais de armazenamento na Ucrânia, em Krivoy Rog e Gorlovka.

Em 2010 foi descoberto que Oskar Pastior era informante do antigo serviço secreto romeno Securitate de 1961 a 1968 sob o codinome “Otto Stein”, depois de ele próprio estar sob vigilância.

Nas palavras de Herta Müller: “Susto, raiva, depois simpatia e tristeza. É claro que é terrível descobrir que alguém que você achava que conhecia, tinha um segredo nunca confiado a você. Mas penso como Pastior devia ser vulnerável e chantageado: um homossexual em um estado que punia a homossexualidade com a prisão”.

Foi no livro de ensaios de Herta Müller Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio que me despertou o interesse por Pastior. Müller fala de sua influência e como a sonoridade, o humor e o sarcasmo da poesia de Pastior a divertia.

Os poemas a seguir foram escritos entre 1958 -1972 e foram retirados do livro Oskar Pastior durch – und zurück- Gedichte, Editora Fischer, 2007.

Valeska Brinkmann nasceu em Santos, estudou Rádio e TV na FAAP (SP). Escreve histórias para crianças, contos e poemas. Publicou, na Alemanha em 2016, o livro infantil bilíngue Pedrina- a perua que queria ser pavão (Bübül Verlag Berlin), tem textos e traduções em sites literários e antologias na Alemanha, Brasil e Portugal. Com o coletivo GLENSE – Guerrilha Literária Espontânea na Sala de Estar fez uma mini-antologia pela Editora Girabrasil em 2019. Trabalha na emissora de Rádio e TV pública de Berlim, onde vive há quase vinte anos.

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das dialektgedicht ernährt sich von wurzeln nachtigallenzungen froschschenkel aber es liebt die usambaras so sehr daß es sich schämt andererseits sollte man am dialektgedicht nicht vorbeigehn ohne es von mir zu grüßen einmal hatte ein bauchredner es gekidnapt er ließ es in südwales auf seiner weißen mauer reden wollte aber nichts dafür haben jetzt kann man schreiben was man will

o poema dialetal se alimenta de raízes línguas de rouxinol coxas de sapo mas ama tanto as usambaras que se envergonha, por outro lado, não se deve passar pelo poema de dialeto sem mandar um cumprimento meu uma vez que um ventríloquo o sequestrou ele o deixou falar no seu muro branco no sul de gales mas não quis nada por isso agora você pode escrever o que quiser

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das tonbandgedicht hat eine goldene stimme sie erzählt eine geschichte von einer tötung während ein tonband läuft das mit einer goldenen stimme die geschichte dieser tötung erzählt die goldene stimme ist die stimme des getöteten sie erzählt wie das tonband weiterläuft während der schlag auf ohr und hinterkopf ein absacken ein röcheln ein totsein bewirkt das alles aber wie im stummfilm weil die ganze zeit nur die goldene stimme des getöteten vom tonband zu hören ist sie erzählt wie ein gedicht daß einerseits der eindruck aufkommen konnte ein stummfilm sei gerissen aber die musik laufe weiter andererseits der stummfilm im saal weiterlaufe so daß man zwar sehe wie ein glas vom stuhlrand kippt aber nicht höre wie es zerschellt ebenso den noch baumelnden telefonhörer ohne das quäken zu vernehmen weil ja noch immer die goldene stimme des tonbandes die zeitansage durchgibt das tonbandgedicht trägt den märchentitel ruckdiguck

o poema da fita tem uma voz dourada ela conta a história de um assassinato enquanto uma fita está tocando com uma voz dourada a história desse assassinato conta a voz dourada que é a voz do morto ela conta como a fita continua a correr enquanto o golpe na orelha e na nuca causam um sucumbir um agonizar um estar-morto tudo isso como num filme mudo  porque o tempo todo ouve-se apenas a voz dourada do morto a voz conta como um poema que por um lado podia surgir a impressão que um rolo do filme mudo rasgou e enrolou todo mas a música continuava por outro lado continuava na sala o filme mudo assim se via como um copo na beira da cadeira se inclina mas não escutava como ele se estilhaçou nem os fones pendentes de telefone sem ouvir o estampido porque ainda a voz dourada da fita anuncia  então  a hora certa o poema da fita carrega o título do conto de fadas ruckdiguck *

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die kalesche der poesie wird im gleichnamigen allegoriegedicht erwartet ihr gegenspieler ist die muschel der welt hinzu werden verkörpert die geschichte des sinnbilds das sinnbild des gedankens der gedanke der freiheit und die freiheit der muschel ein unbekleideter wesfall irrt durch die regeln des irrens im hintergrund wird die kalesche mit eingesetzten personen eingesetzt sie naht

a carruagem da poesia é esperada no poema alegórico de mesmo nome seu antagonista será a concha do mundo ademais serão personificados a história da imagem a imagem do pensamento o pensamento da liberdade e a liberdade da concha um genitivo despido errando através das regras do errar ao fundo inserida a carruagem com pessoas inseridas se aproxima

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Was aber ist die Übersetzbarkeit? Sie ist einleuchtend. Sie ist so einleuchtend, daß der Fuhrmann sie dem jüngsten Sohn abnimmt und ohne Schwierigkeit durch zwanzigste Jahrhundert vehikuliert. Sie ist ein Hoffnungsschimmer, den Worte an sich haben, die Politik machen, indem sie ihr heimleuchten. Der Kürbis wird von innen erhellt, eine Fuhre Illumination. Wir erweisen Denkanstößen die Reverenz, indem wir sie anstößig übersetzen.

Mas o que é então a traduzibilidade? Ela é clarividente. Ela é tão clarividente que o cocheiro  a recebe do filho mais novo e a veicula sem dificuldade ao longo do século vinte. Ela é um vislumbre de esperança que palavras que fazem política trazem em si mesmas, iluminando seu caminho. A abóbora é aclarada por dentro, uma boleia de luz. Nós reverenciamos indecentemente novas ideias traduzindo-as indecentemente.

Nota da tradutora:

* Ruckdigu, Blut ist im Schuh –  (tem sangue no sapato) Referência ao conto de fadas Cinderela, na versão original dos irmãos Grimm, Ruckdiguck é a fala de uma pomba que avisa o príncipe que esta não é a dona do sapato (o sapato não serve, portanto sangra o pé da falsária). De alguma forma  “Ruckdiguck – ist Blut im Schuh” entrega que há uma mentira, algo criminoso, por trás.