Heleine Fernandes

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Heleine Fernandes é mulher preta, poeta, professora. Nascida e criada na Rocinha, é doutora em Teoria Literária pela UFRJ, com tese sobre a poesia produzida por poetas negras contemporâneas e o combate ao epistemicídio. Tem poemas publicados no site “Mulheres que escrevem”, na antologia Cult #1 e na antologia “Ato poético”, da editora Oficina Rachel. Seu primeiro livro de poemas, “Nascente”, está previsto para o primeiro semestre de 2020.

*

ouroboros

entre dois dedos
meu clitóris
me devolve
meu corpo inteiro
§

socorro

aprendi a gargalhar com ela.
o som que faz as pessoas me reconhecerem
de longe
é uma assinatura vocal dela
de quem meus músculos recordam
e rendem homenagem.
ela sim
soltava boas gargalhadas insanas
onde quer que estivesse
e tirava à força
quem quer que fosse
da indiferença.
sua gargalhada era quente
minha avó borbulhava
e ficava com os seios nus
a boca vermelha aberta
toda entregue à vocalização
toda ela coberta
de vermelho e ouro
transfigurada.
§

Coiffeur

quando eu era criança
acompanhava minha mãe
em suas idas ao cabeleireiro.
eram os anos 80
e os salões pobres chamavam
coiffeur.
posso organizar minha infância
pelos diferentes coiffeurs de minha mãe.
para todos
as mesmas regras:
minha mãe só confiava em travestis
e sempre cortava o cabelo joãozinho.
§

elegbara

abria as portas do meu corpo
fumaça cheirosa.
Eu entrava
na casa dos meus avós paternos
e encarava a carranca
boca escancarada
os dentes e a língua
diziam-me: “é tudo mentira”.
eu ficava sem chão
posta à prova.
ela me engolia
como a um ovo cru
quebrado em um copo de geleia.
me deglutiu diversas vezes
divertida com a minha inexperiência.
submetida a este treino
sobrevivi à infância.

*