poesia, tradução

Paula Brecciaroli, por Marcus Groza

Paula Brecciaroli (Buenos Aires, 1976) é coeditora do Editorial Conejos, integrante de La Coop – Frente Editorial Latino Americano y psicóloga. Publicou os romances “Otaku” (Paisanita Editora, 2015) e “Brasil” (Editorial Conejos, 2011). Também é autora de “La sinceridad de un golpe” (Santos Locos, 2018), donde foram retirados esses poemas; “Te traje bichos para que juegues” (Textos Intrusos, 2011); “Pequeño Ensayo Ilustrado” com ilustrações de Pablo Rivas (Bonny Clide Ediciones de Mentira, 2009) e “Vaca Vaca” (edição de autor, 2007). Participou das antologias “9 Antología de cuentos” (Textos Intrusos, 2013); “La mano que mece” – antologia de editores (Ediciones Outsider, 2015), “Pobre Diablo” (Pelos de Punta, 2016). Colaborou para as revistas Lugares, Brando, Maíz, Maten al mensajero, Ensayos e El Planeta Urbano.

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, performer e encenador. É autor do livro “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019), entre outros.

* * *

Há noites
como a de hoje
que são feitas de estilhaços
da tua imagem
no sofá,
dessa mancha na parede
que teu corpo deixou,
desse rastro
imperceptível
da tua passagem
pelo tempo.
E aqui estou eu
rodeada
desses restos
tentando fazer
que o nada
signifique algo,
agora que não estás.
Agora que a noite
está cheia
de retalhos,
eu sigo buscando
isso
que não tem nada a ver
com tua imagem no sofá,
nem com esta parte
que amputada
recorda sozinha.
Tudo isso,
meu amor,
já me basta.
Com tudo isso
componho
a história
do mundo.
Um rascunho.
Teu gesto cujo
ímpeto pode
fazer que o eixo
do planeta
se curve.

Hay noches
como la de hoy
que están hechas con astillas
de tu imagen
en el sillón,
de esa mancha en la pared
que dejó tu cuerpo,
de ese rastro
imperceptible
de tu paso
por el tiempo.
Y ahí estoy yo
rodeada
de esos restos
intentando hacer
que la nada
signifique algo
ahora que no estás.
Ahora que la noche
está hecha
de esquirlas,
yo sigo buscando
eso
que no tiene nada que ver
con tu imagen en el sillón,
ni con esa parte
que amputada
recuerda sola.
Todo eso,
mi amor
me alcanza.
Con todo eso
yo compongo
la historia
del mundo.
Un rasguño.
Un gesto tuyo
puede hacer
que el eje
del planeta
se curve.

§

Saio ao quintal de noite
e em um apartamento
um cara rima
à contraluz
azul magenta
de um televisor.
Os olhos velhos
do meu cão
não se alteram.
Busco nas palavras dos outros,
nas tuas,
nas dessa poeta russa,
ou eslava, ou polaca?
Onde está a poesia?
Me ponho
a revirar as plantas
à meia-noite,
buscando um feitiço
algo que explique
onde,
em que terra,
brotam
os poemas.
E acho que essas floreiras
vazias
que abandonei
se parecem comigo.
Me esmero
para que não cresçam gramas
nem ervas daninhas.
Nem um broto
que as pragas,
os pulgões
as larvas
sejam capazes de matar.
Melhor a terra seca
Melhor
que não cresça nada.

Salgo al patio de noche
y en un departamento
un pibe rapea
a contraluz
del azul magenta
de un televisor.
Los ojos viejos
de mi perro
no se inmutan.
Busco en las palabras de los otros,
en las tuyas,
en las de esa poeta rusa,
¿o eslava o polaca?
¿Dónde está la poesía?
Me pongo
a hurgar las plantas
a medianoche
buscando un hechizo
algo que explique
dónde,
en qué tierra
brotan
los poemas.
Y creo que esas macetas
vacías
que abandoné
se parecen a mí.
Me esmero
en que no crezca yuyo,
ni cizaña.
Ni un brote
que las plagas,
los pulgones
o las orugas,
sean capaces de matar.
Mejor la tierra reseca
Mejor
que no crezca nada.

§

Sou
esse samurai
que
sentado sobre os calcanhares
desembainha a katana
a coluna ereta
o movimento
estudado.
Esse roçar imperceptível
do metal.
Sou eu
o samurai
que esta noite
quer
espera
sentir o fio
entrando
em seu corpo.
Os três movimentos
finais.
O ar.
O frio.
O cheiro de sangue.

Soy
ese samurai
que
sentado sobre sus talones
desenvaina la
katana
la espalda erguida
el movimiento
aprendido.
Ese roce imperceptible
del metal.
Yo soy
el samurai
que esta noche
quiere
espera
sentir el filo
entrando
en su cuerpo.
Los tres movimientos
finales.
El aire.
El frío.
El olor de la sangre.

§

O ar explode
na traqueia
buscando
onde se expandir.
Não ser palavra.
Não ser voz.
Nem chamado.
Mergulhar
no mais profundo
que aguentem
as membranas
os alvéolos
as artérias.
Ir ao fundo
onde o silêncio
é dono de tudo.

El aire explota
en la tráquea
buscando
dónde expandirse.
No ser palabra.
No ser voz.
Ni llamado.
Sumergirse
en lo más profundo
que aguanten
las membranas
los alvéolos
las arterias.
Ir al fondo
donde el silencio
es dueño de todo.

§

Quero ser
uma parede
açoitada
pelo vento.
A corrosão
do mar
me batendo
na cara
até sentir
a pele fervendo,
os olhos cheios
de água.
Ser musgo
líquen.
E então
pela primeira vez
saber quem sou.

Quiero ser
una pared
azotada
por el viento.
La corrosión
del mar
pegándome
en la cara
hasta sentir
la piel hervida,
los ojos llenos
de agua.
Ser musgo
liquen.
Y recién
entonces
saber quién soy.

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte IX

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem planejamento prévio, de modo algo semelhante às manifestações massivas que inundaram as cidades brasileiras. Atuando como um elaborado arquivo dos afetos e das tensões, das violências, das imagens e dos desejos daqueles dias de fúria e expectativa, os poemas reunidos em Vinagre, sob essa perspectiva, vêm se somar – guardadas, é verdade, as muitas e importantes distinções existentes – aos milhares de vídeos e fotos pessoais feitos durante os protestos, cada um deles, em pequenos fragmentos, apropriando-se de um acontecimento que, pela sua natureza movente e coletiva, intempestiva e paradoxal, permanece até hoje um enigma, um evento não-reconstituível em sua totalidade, posto como desafio ao pensamento político tradicional. Mesmo que a direita do espectro ideológico tenha, vistas as coisas do belvedere privilegiado – e catastrófico – deste ano de 2019 (posterior, portanto, às práticas corrompidas e partidarizadas da Operação Lava-Jato, à destituição do mandato de Dilma Rousseff, ao debacle do sistema político brasileiro e à eleição, enfim, do candidato autoritário e proto-fascista Jair Bolsonaro) tenha se apoderado da narrativa principal dos protestos de 2013 e das suas consequências político-eleitorais imediatas, a origem das explosões populares e de suas pautas mais consequentes e duradouras se situa à esquerda, no campo das aspirações democráticas e da realização plena da justiça social. Tudo isso é relevante para a compreensão do papel que cumpre Vinagre na cena poética brasileira porque o livro como que consolida e expande a orientação política que se esboçava, há já alguns anos, em parte significativa da poesia escrita no Brasil. Se livros como os de Marcelo Ariel (Tratado dos anjos afogados [2008]), Pádua Fernandes (Cinco lugares da fúria [2008] e Alberto Pucheu (Mais cotidiano que o cotidiano [2013], por exemplo, apontavam, cada um a sua maneira e a partir de pressupostos muito diversos, para a violência histórica das relações sociais no país, sem que fosse possível, numa escala mais ampla, dar contorno e sentido à sucessão de poemas que, dispersivamente, insistiam em voltar às mesmas imagens e às mesmas questões. Vinagre vai reunir muitos outros poetas, conhecidos e desconhecidos, veteranos e estreantes, bons e maus artistas, que irão explicitar, no conjunto informe que é a antologia, a tendência que antes podia ser apenas vista de relance. O desejo de participar dos protestos, de fazer a poesia se posicionar entre os discursos públicos em luta naquele momento pode ser percebido pela extensão do projeto: em curtíssimo tempo, depois de um chamado divulgado nas redes sociais, mais de 150 poetas enviam contribuições para Vinagre, num gesto que não deve ser interpretado como simplesmente voluntarista ou casuístico. O grande número de autores e a quantidade relativa de bons poemas que se juntaram na antologia (dentre os quais é preciso destacar os de Adriano Scandolara, Diego Vinhas, Julia de Carvalho Hansen e Maiara Gouveia) indicam a latência de um elemento realista na poesia brasileira do presente, e o desejo vivo, até então talvez recalcado, de intervir no presente, responder poeticamente, com todas os problemas que isso tem, aos pequenos e grandes acontecimentos do tempo. Parte da explicação para esse fenômeno está na dinâmica da internet, que reconfigurou os ritmos de leitura, a disponibilidade de textos acessíveis, a velocidade de publicação e mesmo os modos de consumo da poesia. O melhor e o pior de Vinagre tem a ver, quem sabe?, com esses novos agenciamentos que as comunidades virtuais das redes foram formando, e que alteraram sensivelmente a cena poética brasileira. Uma parte da energia crítica e dos excessos militantes que se apresentaram na antologia ainda se fazem visíveis no que se publica agora no país, contribuindo para o grande número de poemas políticos que todos os dias surgem. Nem todos, no entanto, guardam a mesma força expressiva, a mesma capacidade de estranhar a forma e colocar em xeque o próprio sentido da ação política que alguns dos melhores poemas de Vinagre traziam.

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década, parte VIII

uma casa para conter o caos

dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

* * *

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

Ao desdobrar alguns motivos e imagens de seu livro imediatamente anterior, o notável e curtíssimo Cigarros na cama (Berinjela, 2011), Ricardo Domeneck consolidava com o seu Ciclo do amante substituível um novo momento na sua trajetória poética, bem como dava contornos claros a um estilo e a uma assinatura hoje muito facilmente reconhecíveis pelos leitores de língua portuguesa que se interessam pela produção poética atual. Se até então os livros de Domeneck buscavam amalgamar a cerebralidade construtiva da geração de poetas brasileiros dos anos 1990 (do que ela buscava e bebia em João Cabral de Melo Neto, principalmente) com uma tradição carnal e mística que atravessava, subterrânea, a cultura poética do país (mas que era sistematicamente posta de lado, se não mesmo invisibilizada pelas poéticas e correntes críticas dominantes), numa proposta que atingiu seu ponto mais alto em a cadela sem Logos (2007) – nos poemas editados a partir de 2011 o poeta deixa de lado as formas mínimas e os exercícios de contenção – em mais de um sentido – que elas poderiam implicar, para assumir um projeto diverso, na aparência quase avesso ao que antes desenvolvia, mas jamais incoerente com suas linhas de força centrais. A necessidade de dar corpo e espírito ao minimalismo antilírico que dominava os círculos poéticos principais do país se consuma e radicaliza no Ciclo do amante substituível, livro de poemas longos e discursivos que mantém afiado o corte do verso, quase sempre curto e rápido, feito de enjambements que se sobrepõem, e que incorpora agora ao seu repertório tanto as formas e motes arcaicos da poesia Antiga (as odes e elegias da tradição greco-latina, seus modos de celebração hedonista e de lamento público) quanto os ritmos, entonações e imagens da música popular brasileira, especialmente de sua vertente mais sentimental e histriônica. A carga erótica notável nos livros anteriores se eleva, bem como o coeficiente lírico dos poemas, que dramatizam sem cessar a perda do objeto amoroso, bem como o êxtase sensual de sua presença rememorada. O alto grau de elaboração linguística, a consciência profunda da historicidade das formas e um permanente travo auto-irônico distanciam o livro de uma reativação do que a poesia brasileira, ao longo dos tempos, cultivou de pior – a grandiloquência derramada e o sentimentalismo confessional, cheio de verdades e bons sentimentos. Têm razão críticos como Laura Erber (autora, aliás, de um sofisticado livro de poemas, Os corpos e os dias [2008], que também procurou reposicionar o lirismo e o discurso amoroso no campo da poesia brasileira contemporânea, nesse momento refratário a eles]) que apontam, no Ciclo do amante substituível, o jogo de máscaras em meio às quais o eu se apresenta, num movimento cambiante de encobrimento e revelação que esvazia qualquer leitura apressadamente biográfica e circunstancial. A única verdade definitiva: o sujeito lírico constrói a sua mitologia e opera através dela. O embaralhamento de verdade e ficção tão decisivo para o livro se apoia nesse processo de contínua fabulação de si, e que encontra na identificação projetiva do eu com personagens diversos, famosos e anônimos, antigos e contemporâneos, um modo de configuração particular. O Moço, amante desejado e ausente, é peça central do quebra-cabeça que é o Ciclo do amante substituível, do qual também fazem parte Elizabeth Taylor, Antínoo, um acordeonista de Bruxelas, Frank O’Hara, Maysa e tantos outros, inumeráveis nesse livro longo. Erudito e derramado, reflexivo e pop, o livro de Ricardo Domeneck reabriu caminho para a lírica amorosa no Brasil, desenvolvendo um modo bastante fértil de aproveitar os excessos melodramáticos que formam e cercam a cultura brasileira, na poesia e em tantas outras expressões artísticas. A presença da poesia de Domeneck no que se produz hoje é considerável, podendo ser vista em autores como Adelaide Ivánova, William Zeytounlian ou Ismar Tirelli Neto; do mesmo modo, é também notável o papel que cumpre como arqueólogo de poetas e poéticas, orientando, bem ou mal, releituras que se têm feito de nomes do passado remoto ou recente que permaneciam à sombra.

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Victor Squella

squella

 

Victor Squella [1994] nascido em junho no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, escreve e traduz. Publica, pela 7letras, seu primeiro livro, a ser lançado no dia 28/10 na Lado7 [Galeria Vitrine de Ipanema. Rua Visconde de Pirajá, 580, 3º andar].

Abaixo, alguns poemas de Escápula [7letras, 2019].

*

Conto de Verão

começa com um nome
dizendo um nome
até dar coisa
ao nome
dizer até que apareça
algum tom—cor—
até tornar terra
e então aos poucos
água e alguns relevos

dizer o lugar
e repetir
até que o nome
seja lugar
que o trem seja
apenas língua

não é que não se possa
viajar ao nome
mas os trilhos
já não parecem mais
caber no espaço entre
o dente e a língua

pode-se sempre
prometer que
sim
iremos
tomar o trem
que os trilhos
irão sustentar
nossas bocas
até chegar ao nome

*

pense na medusa e em eros
deixe para lá pentesileia,
suas máquinas de guerra
medusa e eros eram belíssimos
eles eram quase
uma outra coisa

cabelos-serpentes
asas enormes

diga-me isso não são monstros
isso não te aterroriza?

e me diga que isso
não é paixão
não é desejo
?

pense que pentesileia foi
aterrada
ao ver aquiles

agora pense no poema de paulo
ele diz:
a água é boa e o ar é bom. / a carne é terra: também soa, / também sobe às nuvens, certo, // e arde como a chama mais impura. / porém é terra. e só palavras-terra / me aterram.

e sim só palavras-terra
aterram
e a terra é carne: também soa

eros the melter of limbssappho diria em resposta
não em sua língua
mas na de anne carson

*

correspondência: gênese da mirabelle

Hoje usei a mesma bermuda que usamos
no dia em que cruzamos
linhas

que separam uma terra da outra
Lá não falavam a minha ou a tua
língua era outra mas certas palavras

ou nomes nos confundiam
pela sua semelhança
pois todas as três línguas estranhas

entre si dividiam a gênese latina
E de uma língua para outra bastava
um trem com exceção de uma separada das outras

por um oceano
Poderíamos listar aqui como fizemos
lá o que une as três línguas

O latim
O mar
As praias

Mas não
não seria suficiente para dizer da confusão
que fazíamos quando queríamos pedir

algo para refrescar o calor
e nem mesmo a água parecia gelada o suficiente
nem mesmo a praia parecia o lugar ideal

para aquele sol e é por isso que te escrevo
Pois encontrei um punhado de areia
na bermuda que usamos

naquele dia ou naqueles dias naquela cidade
pois pedi que me deixasse com aquilo
com aquela bermuda que tinha a mesma cor

da fruta que comemos sem saber o nome
e ficamos sem saber por dias
sabendo apenas do sabor

O sabor me vestia bem mas a cor
não nunca me vestiu bem e mesmo
a bermuda sendo sua continuei

a não saber vestir aquela cor
por culpa da pele e por culpa
da cintura que não cabem

neste tom de amarelo escuro
que alguns chamariam de vermelho
como chamam aquela fruta selvagem

que viajou da Anatólia até chegar àquela
cidade e receber o nome
Mirabelle que poderia ser o mesmo

da mulher que as cultivava e que
as ofereceu dizendo
coisas velozes

e não sabíamos nunca onde começava
ou
terminava uma

palavra

 

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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Parte VII

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

Monodrama é um livro sujo, convulsivo, no qual a forma em desagregação do poema convive e se mistura com o estado permanente de crise em que o mundo aparece mergulhado – não apenas o Brasil. Num certo sentido, pode-se dizer que o livro antecipa (num movimento que continua e radicaliza o que já havia feito Tarso de Melo em Planos de fuga (2005), ao passo em que dialoga com o que no mesmo ano indicava Eduardo Sterzi em Aleijão (2009)) o mal-estar que se instalaria na cultura brasileira (com a literatura à frente) poucos anos depois, no pós-2013, mas que no momento preciso de sua publicação talvez não se deixasse perceber em meio à euforia do crescimento econômico e das políticas de redistribuição de renda àquela altura em seu auge, entre o fim do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff. A alternância entre o verso curto, veloz e fraturado (que não traz mais a limpidez do corte preciso – cabralino, para alguns – que marcaria a lírica minimalista dos anos 1990) e a prosa cumulativa, às vezes próxima da crônica alucinada, às vezes configurada como diário íntimo ou como ficção especulativa, singularizam o livro no panorama da poesia brasileira, dando a ele, ainda, forte lastro político, já que a forma em crise aberta e a paisagem de catástrofes que se insinuam nos poemas são, de fato, uma coisa só no livro, sobrepostas sem qualquer interrupção. Há como que um movimento pendular que atravessa e constituiu Monodrama,segundo o qual os seus textos ora se aproximam do discurso poético, visto como modo de resistência e sobrevida da beleza e de formas autênticas de habitar o mundo, ora o rejeitam fortemente, esgarçando o seu tecido pela ironia e pela violência, num movimento que se coloca em sintonia, por exemplo, com elaborações negativas da antipoesia de Nicanor Parra (com sua anti-grandiloquência característica, avessa também ao sentimentalismo barato ou à confissão melodiosa e autoindulgente) ou ainda com as tentativas de saída do território da poesia operadas por certos poetas franceses das últimas décadas como Jean-Marie Gleize, entre outros, que pressupõem outros territórios, como a prosa, para o reposicionamento do poético. Reconhecido por críticos e por outros poetas como uma referência incontornável de seu tempo, a época das promessas e da catástrofe no Brasil, o livro de Carlito pode ser rastreado em diferentes projetos criativos desenvolvidos nos anos seguintes, dos quais o perturbador Nominata morfina (2014), de Fabiano Calixto, composto inteiramente por poemas em prosa, talvez seja o exemplo mais bem elaborado. 

* * *

O que ainda virá:

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes V e VI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes V & VI

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

Ricardo

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

Numa década em que as experiências em torno da poesia visual parecem ter se deslocado, numa demonstração de que – em que pese o vigor criativo de um André Vallias e de um Sérgio Medeiros, por exemplo – o eixo vanguardista vindo dos concretos perdeu tração entre nós, os Modelos vivos de Ricardo Aleixo conseguem ao mesmo tempo sintetizar o enorme legado (brasileiro e internacional) da visualidade na poesia e expandi-lo, propondo novos meios de relação entre palavra e imagem, entre traço e corpo, entre artes plásticas e literatura, enfim. Um dado decisivo nesse reposicionamento da questão do visível e da visualidade na cena da poesia brasileira contemporânea passa, sem dúvida, pela performance, pelo lugar que essa prática artística (todo um campo de pesquisa e invenção quase desconhecido no país, pelo menos nos termos radicais em que o poeta mineiro o coloca) ocupa no livro. Os grafismos e os registros manuais da escrita que atravessam Modelos vivos dão conta de um processo vivo, em pulsação, que se não acontece, em ato, diante dos olhos do leitor, remete para uma tentativa de registro daquilo que, na corporalidade da ação performática, é gesto irrepetível, memória das mãos do artista-criador. Do mesmo modo, a presença, no livro, de um poema-ensaio como o “Poemanto” aponta também para o mesmo lugar, uma vez que o texto descreve e procura refletir sobre a corpografia ritual que a performance institui na obra de Aleixo, criando um novo ângulo através do qual a consciência visual do poeta vai se expressar. Até pela sua extensão (são 75 poemas, muitos dos quais longos, outros tantos seriais), Modelos vivos assinala ainda, com maior rigor, as linhas de força desse poeta tão singular no panorama brasileiro, em cuja obra se cruzam o legado sofisticado e hiperconsciente do Concretismo (de Augusto de Campos em especial), o gosto pela improvisação e pela mistura de um Hélio Oiticica (às vezes de um Leminski) com o resgate, de dimensão histórica e espiritual, da ancestralidade africana, seus sons, movimentos, gestos e sentidos. Talvez seja possível dizer que Aleixo, nos vários livros que publicou desde então, não tenha voltado a atingir o grau de domínio técnico e o largo alcance político dos poemas reunidos nestes Modelos vivos, o que explicita
ainda mais a importância do material, seja pela identificação com os marginalizados que se projeta em tantos textos (acentuando o compromisso ético perceptível desde o título, que remete aos artistas de rua do nosso tempo, invisíveis, e aos modelos anônimos fixados em quadros do passado), seja pela dimensão renovadora de seus objetos verbais e não verbais.

*

ANA

um acordo tácito com as coisas vivas

O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

Se não é o melhor livro da curta, mas produtiva, trajetória poética de Ana Martins Marques (o exercício de concisão e a melancolia agridoce que informam Como se fosse a casa [2017] fizeram a poeta alcançar, até agora, seus resultados mais expressivos), O livro das semelhanças é certamente o seu volume mais importante e bem elaborado, um projeto muito consciente que reúne e organiza poemas de notável manejo técnico (a variedade e a precisão rítmica são um seu trunfo, por exemplo) e grande capacidade comunicativa, que conseguem dialogar, sem derivar para a banalidade, a fórmula fácil ou o clichê de apelo mercadológico, com o leitor não especializado, atraindo para si um público crescente e variado, responsável pelos seus significativos números de vendas. Um dos elementos que talvez explique o largo alcance dos seus versos seja o coeficiente de surpresa delicada que os textos têm, capazes de extrair pequenas epifanias de um universo de coisas simples, vivências cotidianas, cenas amorosas quase em surdina. A universalidade, por assim dizer, desse procedimento é considerável, haja vista o testemunho que parte importante do modernismo, brasileiro e internacional, deixou dessa combinação entre realismo, sobriedade construtiva e aceno ao sublime. Em Ana Martins Marques essa mistura vai se somar a uma ética que parte da crítica vem aproximando do humanismo, o que por vezes lembra – muito embora não esteja presente na poeta a auto-ironia corrosiva e o indisfarçável lastro romântico – certa dicção de Manuel Bandeira. A atenção ao mundo material, visível em todos os demais trabalhos da autora, tem no Livro das semelhanças um lugar de destaque: seus poemas observam com cuidado, tomando-os como convite ao pensamento, uma miríade de objetos comuns: em primeiro lugar, o próprio objeto-livro, perscrutado em todas as suas partes, da capa ao colofão, passando pelo índice remissivo, material de uma poesia que tem na metalinguagem uma de suas questões recorrentes; o isqueiro levado no bolso, o mapa aberto em viagem, a porta, a janela, os móveis que compõem uma casa. Para cada um deles os poemas parecem ter um acordo a propor, um modo projetivo de aproximação, que neles insufla vida e lirismo ao mesmo tempo que recupera de suas formas um silêncio necessário, um estranhamento que permite compreender, de outro modo, os ordenamentos e afetos humanos. Se não funciona sempre, produzindo, vez por outra, poemas um tanto irregulares, esse intercâmbio entre a poeta e as coisas que a cercam (que cercam toda a gente, enfim) se mostra interessante e necessário ao livro, uma vez que contém, em menor escala, a lógica da permuta e das afinidades que dá sentido aos poemas da seção central do volume, seção que tem título idêntico ao livro. A questão das semelhanças estabelece um princípio relacional como base constitutiva dessa poesia, que passa a se defrontar com o deslimite do mundo, onde tudo é outro e aponta para outro: as casas em que se habita são sempre casas dos vizinhos; se está metido numa roupa que é como um navio abrigando o corpo; as lembranças dos outros são intercambiáveis com a própria memória. Ponto central do livro, os poemas reunidos nessa parte estabelecem um jogo com o leitor, que a partir da sua leitura passa a reconhecer e não reconhecer o mundo ao seu redor, percebendo-o ora mais detidamente, ora como se o visse, de novo, pela primeira vez. A força de mobilização da poesia de Ana Martins Marques passa por aí, por essa força de renovação e memória, e é, quem sabe?, desse lugar que ela tem conseguido reaproximar, no panorama contemporâneo do país, a poesia lírica e o público comum.

*

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

 

Padrão
xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes III e IV

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes III & IV

Como anunciado e começado ontem, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto o post anterior, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

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III. saber contido em seu ser-de-céu
Roça Barroca
2011 – CosacNaify
Josely Vianna Baptista
[Curitiba – 1957]

Composto por poemas que flutuam entre a dicção popular e a experimentação de vanguarda, e também por traduções de cantos sagrados indígenas, pequenos ensaios e notas explicativas, Roça barroca é um livro múltiplo e inclassificável, verdadeiro amálgama de tradições e linguagens que vai, em oscilação permanente, da ciência à arte, do discurso antropológico moderno à imaginação poética arcaica, do mundo social agrário e interiorano (a roça) ao universo estético – ibero-americano, fundamentalmente – dos volteios e dos excessos (o Barroco). Sua natureza compósita revela o que há no projeto de estranhamento e desejo de travessia. No livro, a tradição ocidental, descentrada, convive com outros entendimentos sobre a linguagem e a poesia, colocando em suspenso, continuamente, o sentido da escrita e da atividade poética, que ora é registro de palavras, sons e mitos ameaçados (pelo extermínio, pelo esquecimento, pela invisibilidade), em dimensão etnográfica imediata, ora é construção de uma nova língua e de novas formas expressivas – contaminadas por certo sopro épico e coletivo, que deixa ver ainda a busca por modos outros de inscrição poética da subjetividade, assentada agora na deslocamento do olhar individual e na renúncia ao passado pessoal como fonte privilegiada de conhecimento e emoção lírica. A presença da língua e dos mitos Mbyá-Guarani dá ao volume um caráter de “viagem sem rumo/e sem fim” em direção ao passado e às origens, ao abrir uma dobra na História e inserir nela a perspectiva dos povos nômades e sem escrita, cuja visão de mundo convive, desse modo, em pé de igualdade com os valores e mitos dos inícios do Ocidente. Esse processo de hibridação cancela certezas metafísicas e instala o leitor num campo de especulação aberto, que se prolonga para várias direções possíveis. Em todos os poemas que compõem Roça barroca, mesmo nos que não se alimentam diretamente dos ritos e falas ameríndias, há como que um ponto de fuga, um modo dissolvente de composição que estranha as formas poéticas e o próprio uso convencional da língua portuguesa, tocadas ambas por um saber transcultural e babélico, próprio das “l i n h a s o b l í q u a s” tão caras ao imaginário geral que atravessa o livro, marcado pela espontaneidade de contornos das plantas, pela sinuosidade dos rios, pela matéria amorfa do barro e pelos ziguezagues de bichos e homens através do campo aberto, sem pouso ou destino certo – distantes, nesse sentido, da racionalidade, do passo objetivo, dos ordenamentos funcionais do mundo urbano e industrial (e seus correlatos literários). Se a poesia de Josely Vianna Baptista sempre ocupou posição singular na lírica brasileira, seja pelo diálogo bastante original que teceu com o legado da Poesia Concreta desde o seu primeiro livro, Ar (1991), seja pelo seu convívio prolongado com tradições latino-americanas pouco comuns no país, a partir do projeto levado a cabo nessa Roça Barroca (e que não se sabe que desdobramentos terá, pois a autora ainda não deu ao público outro livro de poemas) a poeta inventa para si uma trilha particular, percurso muito próprio por caminhos pouco ou nada conhecidos pela poesia de língua portuguesa.

*

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IV. estrela de contrabando no bolso
Trans
2011 – CosacNaify
Age de Carvalho
[Belém – 1958]

Age de Carvalho é poeta da forma mínima, da palavra revirada ao avesso, plurissignificante, da língua fraturada e babélica, da consciência poética levada quase às últimas consequências, para quem qualquer letra, traço, sinal diminuto no papel (ou ainda a mancha gráfica do poema, vista como dado significativo da composição) importam tanto quanto uma estrofe inteira, uma frase completa e grandiloquente, todo um aparato retórico. Seu verso curto e preciso abriga, o mais das vezes, uma sintaxe que se torce, um esforço de voltas e negaceios que nos instala num território que se poderia chamar, ao mesmo tempo, neobarroco e minimalista, se admitimos o evidente paradoxo. Dentre os poetas brasileiros do presente, Age talvez seja aquele que melhor deglutiu e meditou dois autores decisivos do século: Paul Celan, quase sempre à beira do silêncio, e Haroldo de Campos, em especial a porção final de sua obra, a poesia pós-utópica que se espalha entre A educação dos cinco sentidos [1985] e Entremilênios [2009, póstumo], construindo, em diálogo com essas duas referências tão distintas, poemas graves e reflexivos, poemas-prece nos quais a visualidade ocupa ainda lugar decisivo, sem no entanto deixar-se fixar na forma estandartizada da poesia concreta, preferindo a fragmentação atomizada da palavra, que se escande na página letra a letra, ponto a ponto. Poeta do exílio e da passagem (cujos poemas flutuam tensamente entre países, tempos, línguas e culturas), Age de Carvalho consolida em Trans a dimensão anfíbia que sua poesia buscava há muito, desde, pelo menos, Areia, arena (1986), livro no qual se aproximavam, ainda de modo incipiente, a pedra e o céu, o chão e o espírito, elementos fundamentais para o poeta nos volumes que virão – Pedra-Um (1990), Caveira 41 (2003), Ainda: em viagem (2015) e, pelo que indicam os inéditos já divulgados, o livro por vir De-estar – entrestrelas. Profundamente assentados na matéria do mundo (povoam os seus versos, essenciais a eles, plantas, paisagens, ossos e outras formas minerais, além de inúmeros corpos humanos), os poema de Trans apontam também para o transcendente, para tudo aquilo que, na vida, é fresta para o sublime e o sagrado: a perscrutação das origens, o sexo, a morte, a persistência da vida na sucessão das gerações, a arte. Imagem muito frequente no livro e em seus trabalhos mais recentes, as estrelas indicam o desejo expansivo dessa poesia, que parece recordar aos homens a sua dimensão cósmica e elevada – atenta às coisas da terra, incontornavelmente, mas jamais desligada do mistério insondável que nos cerca, cobre e constitui.

* * *

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

um acordo tácito com as coisas vivas
O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Padrão
crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes I e II

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

O professor da UFMG e crítico Gustavo Silveira Ribeiro escolhe e comenta os livros mais importantes da última década na poesia brasileira. Uma série de brevíssimos ensaios sobre algumas das vozes que marcaram a lírica contemporânea de 2008 para cá. Antecipamos aqui os dois textos da série, que em breve estará, completa, na página da escamandro. Um aviso aos navegantes: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

I. uma arte como a sombra temperando a luz
Icterofagia
2008 – Hedra
Dirceu Villa
[São Paulo – 1975]

Poeta das máscaras e das múltiplas vozes, Dirceu Villa assume de modo bastante consciente, neste que é o seu mais complexo e extenso livro, a dupla lição de Ezra Pound: o poeta deve ser muitos sendo um só, cantando/escrevendo à maneira de outros, domando estilos e perspectivas que não são (não podem ser) as suas; o seu tempo, por sua vez, estará conectado a todos os outros tempos – ser contemporâneo é pertencer a todas as épocas (com ênfase na sua, no seu momento histórico), entrando e saindo por elas sem se deixar prender por nenhuma. Icterofagia combina, nesse sentido, o impulso em direção ao novo e à experimentação formal típico das vanguardas com a solicitação permanente da história literária e da tradição (são mais decisivas as reverberações da Antiguidade e do Medievo, mas há também traços da lírica de outros tempos da Modernidade, do século XVI ao XX), o que dá aos seus versos uma dicção bastante singular, posta entre a ordem severa dos clássicos e a tormenta desestabilizadora (e profícua) dos modernos; entre, enfim, as questões – de ordem ética e estética – ainda abertas e prementes, formuladas há milênios por poetas e filósofos, e os dilemas do tempo presente, que estranham e refratam aquelas questões, acrescentando a elas novas dimensões, que, no entanto, não satisfazem as suas demandas. No livro, a invocação das musas, dos mitos (recorde-se, aqui, o belo e emblemático poema “DISCURSO FLORAL DE DAFNE TRANSFORMADA EM LOUREIRO”, que justapõe Ovídio e Radiohead, a imaginação poética do mundo antigo, centrada no processo da metamorfose, e a visualidade comum à poesia do século XIX e XX, de Mallarmé, cummings e a Poesia Concreta) e dos trovadores se dá sobre a matéria impura dos dias que correm, eivada de burocracia, progresso e estratégias de marketing. A crítica ao mundo contemporâneo proposta nos versos de grande apuro formal, ao mesmo tempo atualiza a força derrisória dos mestres do passado (fazendo-os pensar indiretamente, por deslocamento, questões de outro momento histórico) e alonga, de modo quase indefinido, a carnadura trágica dos conflitos que assolam o mundo atual, na medida em que eles se projetam em contradições arcaicas, fundadoras. O poema dramático e a sátira são duas formas-força do passado revisitadas com maior interesse e perícia por Villa, que as toma como campo de experimentação, seja pelo aspecto anacrônico que têm diante das fórmulas poéticas do momento, seja pela atualidade urgente que elas podem ter – dado que acrescentam ao repertório político da lírica contemporânea um caráter sibilino e mordaz (caso da sátira) que as certezas e assertivas muito diretas de certa poesia presente não deixam ver, ou ampliam as possibilidades expressivas do poema a partir do efeito de deslocamento e pluralização que o drama-poesia oferece, uma vez que se abre ao simulacro de uma outra voz e à encenação (por vezes mais aguda) de um conflito entre tempos, valores, classes ou pontos de vista distintos. Erudito, multilíngue, rigoroso, o livro (cujo título remete à devoração de uma cor, indicando a incorporação, pelo poeta, do que há de melhor e de pior – o ouro e a bile) certamente foi menos lido do que poderia, mantendo-se, por vezes, à margem do debate que tem sacudido, bem ou mal, a cena poética brasileira. Ainda assim, no entanto, figura entre suas criações mais relevantes e desafiadoras, dialogando e se desdobrando na obra de poetas como Ricardo Domeneck, companheiro de geração de Dirceu, e Guilherme Gontijo Flores, cuja estreia se deu 15 anos depois do primeiro livro do autor.

§

II. uma mulher de tijolos à vista
Um útero é do tamanho de um punho
2012 – CosacNaify
Angélica Freitas
[Pelotas – 1973]

Um dos livros de maior impacto das últimas décadas no universo da poesia brasileira (em números de vendas e na presença no debate público do país), Um útero é do tamanho de um punho tem no riso e na paródia as suas principais apostas, num discurso que se arma, sempre crítico, pelos deslocamentos e pela desproporção típicas do humor, de um lado, e pelo gume terrível da derrisão de outro, a partir do qual todas as coisas que têm lugar no poema, inclusive as mais graves (o direito ao aborto, o homoerotismo e a homofobia, a misoginia difusa no tecido social brasileiro, o feminicídio), só se validam pelo olhar desabusado que de tudo ri. Os modos de composição privilegiados são as formas seriais da repetição, visíveis sobretudo nos temas e voltas da poesia antiga ou do cancioneiro popular retomados no livro, e nos poemas de estrutura anafórica que se fazem como ladainhas ou fórmulas de propaganda, utilizando a saturação como estratégia: pela repetição exaustiva alcança-se o efeito do ridículo, da piada que se impõe pela extensão sem limites de um mesmo procedimento ou informação; pela repetição, a violência invisível de um fato qualquer (por exemplo, o desprezo pelas mulheres difundido – e naturalizado – em pequenas frestas da linguagem comum) vem à tona, tornado assim absurdo e insuportável aos olhos de quem antes não o notava; pela repetição, por fim, a maquinaria do poema se revela ao leitor, num processo de desnudamento da operação poética que acentua, ainda mais, o seu caráter crítico, posto que distancia o leitor de qualquer apreciação desatenta e leve desses textos. Eles são artifícios, antipoesia, peças sem qualquer confissão sentimental ou desejo de enlevo: preferem, ao contrário, o desconforto e a reflexão. O tema fundamental do livro – os muitos modos da violência contra as mulheres e as formas várias que elas têm de enfrentá-los – foi inventivamente assumido por Angélica Freitas, que contorna as suas armadilhas e seduções fáceis com bastante habilidade e verdadeiro tino teórico: ao dar dimensão coletiva e impessoal aos seus poemas, afastando-os de modo tático da expressão de um eu individual e circunscrito, a autora potencializa a radicalidade da discussão de gênero que se dá no livro, levando às últimas consequências algumas das indagações sobre as quais seu projeto se estrutura: sobre as potencialidades do feminino, suas possibilidades de enunciação e suas liberdades; sobre a natureza dos poemas (seu aspecto genérico, seu estatuto formal, sua discursividade feminina mesma, uma vez que escrever, no livro, é tarefa por excelência das mulheres, dada a simetria entre útero e punho proposta desde o título); sobre a condição disruptiva (em relação à lei, ao Estado e à própria instituição literária) que os poemas portam. Essa modulação discursiva que se move entre o pessoal e o público, entre o relato de si e a luta coletiva tem marcado a fogo a poesia brasileira dos últimos anos, deflagrando uma onda de respostas e incitações ao diálogo, num desrecalque de temas e pontos de vista antes improváveis entre nós. Por si só isso já confirma a força, a originalidade e a pertinência (estética, política) do projeto.

Gustavo Silveira Ribeiro

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poesia

Marcelo Lotufo

lotufo

Marcelo Lotufo é crítico literário, prosador, tradutor, editor e pesquisador pós-doutor em História da Literatura na Unicamp. Traduziu para as Edições Jabuticaba que tempos são estes e outros poemas, de Adrienne Rich, Os elétrons (não) são todos iguais, de Rosmarie Waldrop, e ‘Sotto Voce’ e outros poemas, de John Yau. Editou em Cuba, para as Ediciones Santiago, o volume La selección: 11 poetas brasileños hoy. Atualmente trabalha na tradução de uma coletânea da poeta americana C. D. Wright.

*

SP 270 (Raposo Tavares)

1)

À frente, uma bandeira colorida. A tropa de bandeirantes se prepara para mais uma incursão. No que viria a se chamar Brasil. Aqui, o passado sobrevive. Em vestígios nem tão sutis. Cada palavra, cada detalhe, cada ferida. Importa. Mais do que imaginamos. Como a pontuação de um poema. Como vírgulas na constituição. Indicam um caminho. Que talvez não tomaremos. Ou que tomamos sem perceber. Brasil, ame-o ou deixe-o. No tempo da minha infância a estrada se chamava Raposo Tavares. E ela ainda se chama assim. É um destes traços. E eu a tomo todos os dias. Um passado sem resolução. Que aponta para o futuro. Que define o presente. Um resquício que nos informa. E explica por que trinta anos não valem mais do que um verão.

 

2)

Um passo a frente e o país cresce mais um metro. A estrada já foi uma mera picada. Esperando ser aberta. O que vale mais, um metro de terra ou um quilo de carne. Os bandeirantes que partem vão repetir contra os índios o que com os próprios índios haviam aprendido. No caminho da casa onde cresci, homens armados buscavam ouro. Buscavam o outro. Para não reconhecê-lo. Como igual. A estrada que corta a minha memória, também corta o Brasil. Em muitos outros ângulos. A estrada e os seus acidentes. Que apagam outros acidentes. A estrada e os seus crimes. Uma caravana de horrores. Um homem morto na pista. Vidas que não terão sua história contada. Escondidas atrás de outros nomes.

 

3)

Para continuar vivos, precisam vencer os inimigos. Mas os lados da proposição não são equivalentes. O embate nunca é justo. Palavras definem escolhas. Já tomadas. Denotam lados. Heróis contra vilões. Selvagens contra civilizados. Moradores contra invasores. Os que cobiçam contra os que desejam a liberdade. Quantos nomes poderia ter uma única estrada. Pela qual em uma única viagem, 20 mil peças voltariam amarradas. Em que momento fizemos esta escolha. Do nome que esconderia outros nomes. 20 mil negros, negras, índios e índias. Em uma única viagem. Carregando pesadas correntes de ferro, cada uma com 4 metros e meio de comprimento, com trinta colares fechados por cadeados. Recebidas com alegria na cidade. Como novas mercadorias. O ouro que não encontraram. A riqueza que faltava. Para sermos herdeiros. De um projeto de destruição. Que nunca pôde dar certo. O Brasil crescia mais um metro.

***

 

 

 

 

 

 

4)

 

Vencida a serra, a conquista do planalto. Na televisão, uma grande passeata, muitos anos depois. Mais uma. Por um instante parece que algo pode mudar. Que descobriremos outra camada. Da nossa história. Outra verdade. Outro projeto. Esquecemos que a cobiça não tem fim. Que o desespero se auto-fagocita. Em nome de Raposo Tavares, eu voto sim. Pela promessa de destruir terras e riquezas. Pelo direito de me achar predestinado. De continuar na mesma estrada. Herdeiro do mesmo projeto. O peso mal distribuído entre nós. O mesmo nome. Escondido atrás de outros nomes. Cruza mais uma vez o país.

 

 

5

 

Na derrota, o caminho aberto a ferro e fogo. Quem celebrará a vitória. Quando não houver mais espólio para ser tomado. Quando não houver mais nada. Quando ela se transformar na derrota. Que sempre foi. A quem interessa continuar neste caminho. Manter este nome. Queimar esta mata. Abrir outra picada. Escravizar a diferença. No começo dos anos noventa, faltava gasolina. É uma de minhas primeiras memórias. A estrada transformada em fila. Perdendo a sua função. Antes que eu soubesse quem era Raposo Tavares. A estrada, parada, enquanto esperávamos. Alguma mudança. A mesma gasolina que faz o carro andar. Também pode queimá-lo. Mas nada acontece. Os nomes mudam. Mas continuam os mesmos. Nos mesmos lugares. E as correntes continuam pesadas. Para aqueles que as carregam. Na Raposo Tavares. Antes mesmo que ela tivesse este nome. Antes mesmo que fosse a estrada da minha casa.

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tradução

1 poema de Anne Boyer por Isabella Martino

Anne Boyer

Anne Boyer (nascida em 1973) já apareceu aqui antes na escamandro, em tradução de Rafael Mantovani (clique aqui). O poema abaixo pertence a um de seus principais livros: “Garments Against Women” (2015), uma obra híbrida que passa pelo ensaio poético, poemas em prosa e narrativos. Uma poeta que encara o problema filosófico e material de escrever e, em extensão, de sobreviver nesse mundo contemporâneo, em uma entrevista para a Poetry Foundation, ela declara: “Eu gostaria de descobrir algum jeito de viver que fosse mais do que só informação. Eu gostaria de descobrir algum jeito de escrever aquilo que necessitamos sem que se transformasse em pornografia ou algo muito particular. Gostaria de escrever que estamos alienados, inseguros, que o nosso próximo mês é tão regularmente pior do mês vigente. Há muitas coisas em comum para muitos de nós, são essas coisas difíceis e comuns da vida que nenhuma exibição algorítmica de afeto pode suavizar.”

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta, pesquisadora e tradutora.

* * *

Não estou escrevendo
Quando não estou escrevendo eu não estou escrevendo um romance chamado 1994 sobre uma jovem
mulher de uma cidade provinciana que tem um emprego em um centro empresarial recortando e
colando o tempo. Não estou escrevendo um romance chamado Nero sobre a
artista-estrela no espaço. Não estou escrevendo um livro chamado A Melancolia de Kansas City. Não estou escrevendo a continuação de A Melancolia de Kansas City chamada Maldoror das Putas. Não estou
escrevendo um livro de filosofia política chamado Questões para Poetas. Não estou
escrevendo memórias escandalosas. Não estou escrevendo um livro de memórias patético. Não estou
escrevendo memórias sobre poesia ou amor. Não estou escrevendo memórias de
pobreza, cobrança de dívidas ou bancarrota. Não estou escrevendo sobre a vara
de família. Eu não estou escrevendo memórias porque memórias são para os proprietários
e nem estou escrevendo memórias sobre proibições de memórias.

Quando não estou escrevendo memórias eu também não estou escrevendo poesia de qualquer tipo
nem poemas contemporâneos em prosa ou de outra forma, nem poemas em fragmentos,
nem poemas apertados ou compactos, nem afrouxados ou conversacionais,
nem poemas conceituais, nem poemas virtuosísticos empregando muitos tipos diferentes
de dispositivos eufônicos, nem poemas com epifanias e nem
poemas sem epifanias, nem poemas documentais sobre os últimos momentos políticos,
nem poemas carregados de alusões à teoria crítica e música popular.

Eu não estou escrevendo “Estação Atocha” por Anne Boyer e certamente
não estou escrevendo “Nadja” por Anne Boyer, no entanto, gostaria de escrever “Dívida”
por Anne Boyer, no entanto, eu também não estou escrevendo “A Ideologia Alemã” por
Anne Boyer e nem escrevendo um roteiro chamado “Espartaquistas”.

Não estou escrevendo considerações a meu respeito mais miseráveis que as de Rousseau.
Não estou escrevendo considerações mais inocentes que as de Blake.

Não estou escrevendo poesia épica apesar de gostar do que Milton disse sobre poetas líricos
beberem vinho enquanto poetas épicos devessem beber água em uma tigela de madeira.
Eu gostaria de beber vinho em uma tigela de madeira, ou beber água
direto de uma garrafa vazia de vinho.

Eu não estou escrevendo um livro sobre compras, o que é uma mulher fazendo compras.
Eu não estou escrevendo relatos de sonhos meus ou de qualquer outra pessoa.
Eu não estou escrevendo reconstituições históricas de nenhuma literatura duracional.

Eu não estou escrevendo coisa alguma que alguém me tenha pedido ou que esteja esperando,
nem um ensaio poético ou qualquer tipo de ensaio, nem uma resposta de mesa redonda,
nem respostas de entrevistas, nem escrevendo motes para que escritores mais jovens desenvolvam,
nem meus pensamentos sobre crítica literária ou canções populares.

Eu não estou escrevendo uma nova constituição para a república de nenhuma história.
Eu não estou escrevendo um testamento ou um boletim médico.

Não estou escrevendo posts no Facebook. Não estou escrevendo notas de agradecimento ou de desculpas.
Não estou escrevendo anais de conferência. Não estou escrevendo
resenhas de livros. Não estou escrevendo sinopses.

Eu não estou escrevendo sobre arte contemporânea. Eu não estou escrevendo relatos das
minhas viagens. Eu não estou escrevendo resenhas para a “The New Inquiry” e nem
artigos para a “Triple Canopy” e nem escrevendo para a “Fence”. Não estou
escrevendo anotações diárias das minhas leituras, atividades e ideias. Não estou
escrevendo ficções científicas sobre o problema da ideia de autonomia
na arte e nem ficções científicas problematizando uma sociedade
com apenas uma lei que é o consentimento. Eu não estou escrevendo histórias baseadas

nas ideias de histórias não escritas por Nathaniel Hawthorne. Não estou escrevendo perfis
para sites de relacionamento. Não estou escrevendo comunicados anônimos. Não estou escrevendo
livros didáticos.

Eu não estou escrevendo a história desses tempos ou dos tempos passados ou de tempo futuro algum
e nem mesmo a história dessas visões que estão comigo os dias todos
e as noites todas.

§

 

Not Writing

When I am not writing I am not writing a novel called 1994 about a young
woman in an office park in a provincial town who has a job cutting and
pasting time. I am not writing a novel called Nero about the world’s richest
art star in space. I am not writing a book called Kansas City Spleen. I am
not writing a sequel to Kansas City Spleen called Bitch’s Maldoror. I am not
writing a book of political philosophy called Questions for Poets. I am not
writing a scandalous memoir. I am not writing a pathetic memoir. I am not
writing a memoir about poetry or love. I am not writing a memoir about
poverty, debt collection, or bankruptcy. I am not writing about family
court. I am not writing a memoir because memoirs are for property owners
and not writing a memoir about prohibitions of memoirs.

When I am not writing a memoir I am also not writing any kind of poetry,
not prose poems contemporary or otherwise, not poems made of frag-
ments, not tightened and compressed poems, not loosened and conversa-
tional poems, not conceptual poems, not virtuosic poems employing many
different types of euphonious devices, not poems with epiphanies and not
poems without, not documentary poems about recent political moments,
not poems heavy with allusions to critical theory and popular song.

I am not writing “Leaving the Atocha Station” by Anne Boyer and certain-
ly not writing “Nadja” by Anne Boyer though would like to write “Debt”
by Anne Boyer though am not writing also “The German Ideology” by
Anne Boyer and not writing a screenplay called “Sparticists.”

I am not writing an account of myself more miserable than Rousseau.
I am not writing an account of myself more innocent than Blake.

I am not writing epic poetry although I like what Milton said about lyric
poets drinking wine while epic poets should drink water from a wooden
bowl. I would like to drink wine from a wooden bowl or to drink water
from an emptied bottle of wine.

I am not writing a book about shopping, which is a woman shopping.
I am not writing accounts of dreams, not my own or anyone else’s.
I am not writing historical re-enactments of any durational literature.

I am not writing anything that anyone has requested of me or is waiting
on, not a poetics essay or any other sort of essay, not a roundtable re-
sponse, not interview responses, not writing prompts for younger writers,
not my thoughts about critical theory or popular songs.

I am not writing a new constitution for the republic of no history.
I am not writing a will or a medical report.

I am not writing Facebook status updates. I am not writing thank-you
notes or apologies. I am not writing conference papers. I am not writing
book reviews. I am not writing blurbs.

I am not writing about contemporary art. I am not writing accounts of
my travels. I am not writing reviews for The New Inquiry and not writ-
ing pieces for Triple Canopy and not writing anything for Fence. I am not
writing a daily accounting of my reading, activities, and ideas. I am not
writing science fiction novels about the problem of the idea of the au-
tonomy of art and science fiction novels about the problem of a society
with only one law which is consent. I am not writing stories based on

Nathaniel Hawthorne’s unwritten story ideas. I am not writing online dat-
ing profiles. I am not writing anonymous communiqués. I am not writing
textbooks.

I am not writing a history of these times or of past times or of any future
times and not even the history of these visions which are with me all day
and all of the night.

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