Poema inédito de Ricardo Domeneck

Ricarod Domeneck, por Katarzyna Fetlińska
Ricardo Domeneck, por Katarzyna Fetlińska

Texto em que o poeta se dá ares para justificar a lambança da existência

Se naquela manhã
em que acordamos juntos
sobre aqueles lençóis
impecáveis, ainda moços,
alguma canção escolhida
a dedo, perfeita,
houvesse soado no quarto,
como se vinda de cada
parede e, inaudível para nós,
emocionara uma plateia
que nos era invisível,
mas assistia a cada movimento
nosso, pernas entrelaçadas,
dentes nos dentes;

ou se naquela tarde
em que você anunciou
que desejava a solteirice
e me deixou plantado
naquele ponto de bonde
sozinho, algum
movimento originalíssimo
de câmera enquadrasse
tensões de músculos isolados,
em mim, em você, um lábio
se contraindo, cento e vinte e três
fios de cabelo móveis
ao vento, e então
três ou quatro pessoas
numa plateia para nós inodora
soltassem um ai baixinho,
contraindo os mesmos músculos;

ou se agora mesmo
enquanto escrevo sozinho
estas linhas
a uma mesa de café,
alguém reconhecesse
numa tela
este cliché de filmes:
o escritor sozinho à mesa do café,
e tal imagem entusiasmasse
algum adolescente
que sonha ser também um dia
o escritor sozinho à mesa do café,
interpretado por algum famoso
e/ou canastrão
num filme qualquer
que outra vez revisitasse
a imagem gasta
do escritor sozinho à mesa do café;

mas éramos só nós dois
sobre aqueles lençóis,

sem plateia,

éramos só nós dois
naquele ponto de bonde,

sem plateia,

sou eu só
à mesa deste café
escrevendo estas linhas
e dando-me ares
como se houvesse câmeras
focando minhas mãos e rosto
ao chegar ao fim deste poema,
tentando justificar esta lambança
com uma plateia
que só existe na minha cabeça.