um poema inédito de Ernesto von Artixzffski

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O Ernesto teve seu début aqui no escamandro há pouco mais de um ano (clique aqui) com alguns poemas próprios, e desde então com frequência tem contribuído com traduções de poetas como René Depestre, Roque Dalton, Salvatore Quasimodo e Ungaretti, enquanto desenvolve um projeto, mais a longo prazo, de traduzir o francês Paul Valéry. Deu as caras também em revistas como Mallarmargens, Germina Literatura e Enfermaria 6 (tanto em edição online, quanto impressa). Abaixo segue um poema inédito:

*

                                    why you wanna fly Blackbird?
                                    you ain’t ever gonna fly
                                    Nina Simone

por uma brecha brilha a agonia:
às carnes aradas atado o mundo
de espalhados pastos sem espaços

por uma brecha brilha a agonia:
à noite se bebe se bebe a terra
pelos sulcos escorrem assovios

por uma brecha brilha a agonia:
covas se cavam às cobras sem uso
por uma brecha brilha a agonia

toda dança seu ritmo mantém
no breu dos bosques esconsos
toda dança seu ritmo mantém

e a agonia brilha pela brecha:
se digna opacando-se escurece
por uma brecha brilha a agonia

por uma brecha brilha a agonia:
à noite se come se come a terra
para estralos ouvir o fim da fome:

onde terão curtos bichos sossego
onde será segura a curta vida
onde se deita com folga se deita

por uma brecha brilha a agonia:
tão pequena à noite à terra acolhida
se brinca com ferro com bronze brinca

por uma brecha brilha a agonia:
e num ciclo curto e quase inotável
em calma e clara forma se apresenta

o detalhado desastre da dor
no irreversível instante entreaberto
da natureza mítica das coisas

por uma brecha brilha a agonia:
por uma brecha brilha a agonia

*

O “por uma brecha brilha a agonia” é um poema de seu livro-em-progresso chamado ratzara. O título estranho se explica pela citação do escritor ucraniano Shmuel Yosef “Shai” Agnon (1888 – 1970) escolhida como uma das epígrafes que abre o volume, sobre anagramas em hebraico, retirada de seu livro Até Agora: “Depois peguei as palavras prazer (oneg), abundância (shefa), beleza (shefer) e desejo (ratza), que trocando as letras ficam praga (nega), lodo (refesh), dejeto (feresh), crime (fesha) e aflição (tzara)”. Vale lembrar que esse tipo de anagrama só é possível porque o álef-bet hebraico, sendo algo como um meio de caminho entre um silabário e um alfabeto dito real, não marca as vogais (exceto no texto bíblico massorético, que o faz por meio de diacríticos chamados niqud), o que permite que oneg (ענג) se torne nega (נגע) com um simples deslocamento da letra ayin. Esse tipo de método é comum na produção literária judaica desde a antiguidade (como mostra a Jewish Encyclopedia, há vários exemplos na própria Bíblia), mas foi intensificado a partir do desenvolvimento da Cabala durante o período medieval, muitas vezes como parte de um esforço por uma busca pelo sentido “real” que haveria por trás dos nomes. O neologismo ratzara criado pelo poeta seria uma mescla de desejo (רצה) e aflição (צרה), portanto.

Tendo tido a chance de acompanhar o desenvolvimento do volume e da dicção do Ernesto, posso dizer algumas coisas sobre as mudanças pelas quais passou sua voz poética desde que ele começou a publicar, mudanças observáveis tanto neste poema quanto nos publicados mais recentemente na Enfermaria 6 – e que, salvo alguma mudança brusca sobre seu projeto, prevê-se que devam continuar até que o livro veja a luz do dia. A primeira é que um certo subjetivismo, uma presença do eu que se via de forma mais explícita nos primeiros poemas, vem dando lugar a uma observação do mundo onde essa figura do eu-lírico como observador parece se fundir ao pano de fundo das cenas observadas. Ao mesmo tempo, a dicção mais fluida desses primeiros poemas (como “Sobre minha casa arde a chama da possibilidade” e “dentro de cada máquina”, publicados aqui no escamandro) agora tende a aparecer quebrada, obstruída em versos fragmentários, com construções inusitadas (“se digna opacando-se”, “para estralos ouvir o fim da fome”) e onde as imagens, apesar de ser uma poesia ainda bastante fanopeica com foco na estranheza, emergem enviesadas (contraste um verso como “covas se cavam às cobras sem uso” com o mais direto “dentro de cada máquina, há o choro das lâminas”) – o que aponta para um deslocamento das influências, do surrealismo à moda francesa para figuras como Ungaretti, que ele traduziu, e Paul Celan, que aparece citado de maneira levemente velada.

O tema do poema é a agonia, como fica claro pela repetição do verso de abertura – mas não no sentido lato, só de “dor” ou “sofrimento”, mas etimológico, do ágon grego, a vida como luta, o que imagino que abriria uma brecha para uma possível interpretação do poema pelo viés nietzschiano da vontade de poder e tudo o mais. No entanto, essa luta agônica emerge a partir de um universo de referências que, entre Agnon e Celan, é claramente filossemítico. Não por acaso, o poema, composto em pseudo-terça-rima à moda de Drummond (outra imensa influência sobre Ernesto), tem 32 versos, número literalmente cabalístico, que é resultado da soma das 22 letras do alfabeto com as 10 emanações do divino chamadas sefirót, como diz o Sefer Yetzirá, um dos livros fundamentais da tradição do misticismo judaico. Talvez seja superinterpretação da minha parte, mas, como o verso inicial se repete 10 vezes, é possível enxergar em cada repetição a passagem de uma séfira para outra – não de cima para baixo (Kéter para Malkut), porém, como é a ordem da criação, mas de baixo para cima, a partir das “carnes aradas atado o mundo” (Malkut, significando “reino”, é considerada a séfira mais próxima do mundo material) rumo à revelação da “natureza mítica das coisas” – sendo a própria Cabala precisamente isso, como afirma Scholem, o enquadramento da experiência histórica dos judeus, na forma de um drama cósmico (de novo, o ágon), dentro de sua concepção de mundo. Nesse sentido, a epígrafe do poema acaba sendo irônica: toda a ideia do misticismo se baseia sobre uma noção de possibilidade de transcendência. No entanto, a frase de Nina Simone, da música “Blackbird”, aqui ressignificada pelo contexto, acaba negando isso antes mesmo de o poema começar: why you wanna fly Blackbird? you ain’t ever gonna fly.

(comentário de Adriano Scandolara, poema de Ernesto von Artixzffski)